Quando a gente estuda a literatura infantil, algumas ideias já são tão bem estabelecidas e aceitas que as encontramos em todos os cantos. Duas delas são constantes e podem se fundir um pouco, ainda que aceitemos melhor uma delas, e ambas são muito interessantes para uma reflexão.

Isso posto, vamos às ideias!

 

Ideia 1 — Devemos ser sinceros com as crianças.

O que isso quer dizer no contexto da literatura? Primeiro, que não podemos usar os livros e suas histórias para ensinar coisas para crianças, seja ensinar bons modos (expressão curiosa, que nós nem usamos muito mais no dia a dia!), seja ensinar conteúdos escolares, pois assim o livro perde o caráter literário e passa a ser, de certa maneira, didático. Mas alguém pode nos dizer: “Vocês não desenvolvem atividades relacionadas aos livros da Pipoca em escolas?”. Sim, desenvolvemos. E entendemos que é possível trabalhar os conteúdos dos nossos livros sem pensar em ensino de conteúdos externos aos livros, mas esse tema foi abordado neste outro texto. Segundo, quer dizer também que não devemos esconder determinados assuntos ou temas das crianças, mas sim considerá-las aptas a compreender tudo — o importante é que as coisas sejam ditas de uma maneira que elas entendam.

Sendak* tem uma ótima abordagem a esse respeito:

O elemento básico [de um bom livro para crianças] é a honestidade. Sobre qualquer texto que se trabalhe, seja realista, fantástico ou de ficção científica, deve-se começar com uma base de honestidade. […] Há de se reconhecer que as crianças são pessoas pequenas e valentes, que enfrentam a cada dia uma variedade de problemas, tal como os adultos; que não estão preparadas para muitas coisas e que a maioria anseia por encontrar um pouco de verdade em alguma parte.

Se este é o ponto de partida, depois se pode proceder da forma que se deseje e jogar o conto da maneira como se queira. Se é uma pílula amarga que as crianças não querem tragar, tem que dar a elas a oportunidade de dizer não. Não se pode ser o guardião das crianças, nem decidir o que elas poderão ou não ler. Por que se mantêm as crianças em guetos? Por que temos que ser guardiões em frente das portas dizendo-lhes o que é correto e o que não é? Nós, adultos, temos a possibilidade de escolher o que gostamos de ler. Por que não lhes damos a mesma oportunidade?

Uau! Depois do que Sendak falou nem precisamos dizer mais nada, né?

 

Ideia 2 — Literatura infantil não pode ser politicamente correta nem educativa.

Essa segunda ideia já é bem estabelecida sobre literatura infantil.

Vamos começar pelo termo “educativa” presente nessa ideia. Diz Marisa Lajolo, aquela doutora em literatura infantil de quem tanto gostamos, que, historicamente, a literatura libertou-se da necessidade de educar quando os livros infantis saíram do campo da pedagogia para entrar no das letras. Ufa! Ainda bem que o caminho não foi o inverso, porque é assim que a gente se diverte, com a leitura como um momento de prazer e não de aprendizagem. Exatamente por isso a palavra “educativa” é mal vista em discussões sobre literatura infantil, e aqui voltamos à ideia 1, pois na leitura, como um momento de prazer, não cabe o ensino (dissimulado ou não) de comportamentos ou conteúdos.

Já quanto ao termo “politicamente correto”… Bem, entramos em um campo minado, porque a expressão “politicamente correto”, em si, é complicada. Mas é isso aí; se nós temos uma editora de livros infantis digitais quando ainda nem existe mercado para isso, quem disse que a gente tem medo do que é complicado?

Então, vamos começar do começo e ver o que diz sobre isso quem já estudou profundamente o assunto: Ilan Brenmann, autor do famoso livro Até as princesas soltam pum. Em sua experiência em escolas, ele disse que alguns diretores ficam horrorizados quando ele conta história com puns, com alguns xingamentos (leves, claro!) ou com situações conflituosas sem um final feliz e coisas assim. E fez da sua tese de doutorado uma defesa de que as crianças não sejam colocadas em uma bolha sem conflitos e com palavras escolhidas a dedo, como se o mundo fosse higienicamente lindo e cheiroso.

Nós estamos totalmente de acordo, e pensamos que, se a literatura infantil fosse didaticamente higienizada, o livro O menino maluquinho nunca teria sido publicado! Já pensou que tristeza? Ora, ele até poderia ser diagnosticado como hiperativo!

Brincadeiras à parte, o grande ponto de embate aqui, a nosso ver, é que a ideia de higienização corre o risco de ser invertida e transformar-se em uma apologia a situações que são, sim, complicadas para as crianças.

Vejamos: não podemos deixar as crianças em uma bolha, também não podemos usar a literatura para ensinar valores (já que deixa de ser literatura), mas temos o dever de pensar que não podemos fazer apologia a situações problemáticas.

Um exemplo? Um livro infantil pode muito bem ter um personagem que toma bebidas alcoólicas – aliás, quantas vezes um palhaço não se parece com alguém bêbado? –, mas daí a colocar em livro que beber álcool é legal ou, o que é mais comum, associar bebidas alcoólicas a situações alegres, boas e felizes, já é outra coisa… O complicador é o fato de que o entendimento de uma criança é imediato e, com isso, ela pode realmente procurar algo alcoólico para beber, sendo que é comum que uma criança tenha acesso a bebidas alcoólicas, como em festas, por exemplo.

É preciso muita responsabilidade com o que se produz para crianças, até porque, dentro desse exemplo, voltamos ao ponto 1, de ensinar valores por meio da literatura; nesse caso porém,  seria um valor moral invertido, ou seja, um incentivo ao consumo de bebida alcoólica… Complicado fazer livros assim para crianças, não? Tão complicado quanto fazer um livro, que se pretenda literário, mas cujo objetivo seja, especificamente, passar a mensagem de que não se deve beber bebidas alcoólicas e que o álcool faz mal à saúde. É daí que vem um receio de se falar em “politicamente correto”, pois se trata de não colocar as crianças em uma bolha higienizada, mas também não dá para sair falando tudo o que se quer, a torto e a direito, sem pensar que, sim, é preciso ser cuidadoso ao abordar alguns temas com as crianças, para que também não se caia no ensino de moralidades ao contrário.

 

Ideia 1+2 — A fusão

É aqui que as duas ideias mencionadas antes se fundem, ou melhor, se confundem. Porque ambas falam da necessidade de não manter as crianças isoladas dos adultos e do mundo real e difícil em que vivemos. Mas, pensemos…

Quem acredita que crianças não podem escutar palavras como “pum” ou “bobo” ou, ainda, que protagonistas dos livros têm de ser personagens perfeitinhos e exemplares, tem, na verdade, uma concepção de infância muito clara, de acordo com a qual crianças são sempre puras e, como serão naturalmente corrompidas pelo mundo com o passar do tempo,  devemos protegê-las o máximo possível. Pensando assim, até que faz, sentido querer uma literatura sem puns, imperfeições e conflitos, não faz? É uma visão de mundo — não é a nossa visão de mundo, mas é uma delas. E não é a nossa porque nós entendemos que isso é uma proteção excessiva, isso é uma bolha. Mas é em uma visão protecionista como essa que faz sentido evitar que as crianças conheçam a Emília, do Monteiro Lobato, o Menino Maluquinho, a Pippi Meialonga ou o Peter Pan, pois esses personagens nunca poderão ser exemplos de comportamento; então, os livros em que eles estão não condizem com essa determinada visão de mundo.

Pois bem, mas como essa não é nossa concepção de infância, nós temos outro ponto a analisar — e, ao fazê-lo, vamos complicar um pouquinho a situação! Nós falamos de visão de mundo, certo? Então, vejamos: e se um livro apresentar uma visão de mundo machista, isso não será um problema? E se apresentar uma visão homofóbica, racista** ou, ainda, uma situação violenta com alguma criança?*** Situações como essas seriam um problema ou não?

Podemos pensar que pode não ser um problema se houver algum adulto mediador por perto, que discuta a situação com a criança, mas, se estivermos pensando em literatura como momento de fruição da criança, abordagens como as citadas não se encaixam. Então, sim, um livro infantil com uma visão de mundo machista, homofóbica, racista ou violenta seria um problema. E o grande problema seria a naturalização dessas visões de mundo, pois não queremos que nossas crianças tenham contato com uma visão naturalizada de problemas que são históricos e estruturais da nossa sociedade. E não o queremos porque sabemos que se pode escrever sobre isso de maneira muito sutil, até bonita, mas sem problematizar questões que têm, sim, de ser discutidas. Ao menos na nossa visão.

Na mesma linha, mas no sentido inverso, podemos pegar uma lista bem legal publicada em outubro do ano passado: “10 livros infantis que abordam os direitos humanos”. São livros fantásticos! Realmente, vale a pena conhecê-los. Mas, vejam: também nesses casos não se está querendo apresentar às crianças uma visão de mundo específica? Por que os livros dessa lista não estão sendo considerados educativos? Só porque têm uma linguagem literária e não didática? Não estariam eles sendo, também, politicamente corretos ao execrar situações de desrespeito aos direitos humanos em livros infantis e exaltar o contrário? Não estariam usando a literatura infantil para problematizar? E problematizar, junto às crianças, não é o mesmo que educar? E por que não são considerados politicamente corretos?

Claro que rejeitar a palavra “pum” ou o comportamento indisciplinado de algum personagem é uma coisa bem banal perto de uma discussão sobre direitos humanos. Racismo mata, homofobia mata, machismo mata… Pum, não! Mas, para alguém que tenha uma visão de mundo diferente da nossa, determinadas palavras e determinados comportamentos podem não ser banais, não é mesmo?

 

Ideia 1 e ideia 2

É aqui que entra a diferença importante entre a primeira, amplamente difundida, ideia de que devemos ser sinceros com as crianças, e a segunda, de que os livros infantis não podem ser nem politicamente corretos e nem educativos. A diferença é que a segunda ideia pode ser relativizada; portanto, ela precisa de um contexto para poder ser entendida bem claramente. Assim sendo, usá-la sem contextualização pode ser um tiro no pé, pois é uma ideia estilo “coração de vó”, dentro da qual sempre cabe mais uma visão de mundo. Como dissemos, a expressão “politicamente correto” é bem complexa…

Já a primeira ideia, a da sinceridade com as crianças, é mais específica, pois abarca em si a visão de mundo de que literatura não é ensino. Nessa visão de mundo, acredita-se que a criança seja capaz de entender sobre todo e qualquer assunto e, aí, a banalidade não entra. Por quê? Porque o livro se torna um espaço em que o conflito é, sim, bem-vindo, porque a criança pode, sim, ter contato com situações bem difíceis e complicadas e, o principal: porque ela pode escolher se quer ou não ter esse contato! Assim como nós podemos ou não gostar ou querer ler livros que abordem tais ou quais temas, oras.

É por isso que, das duas ideias que encontramos a rodo por aí em discussões sobre literatura infantil, a que mais nos agrada é mesmo a de que devemos ser sinceros e honestos com as crianças, seja qual for a visão de mundo que se tenha. Sempre.

 

 Por Suria e Isabela

 *****

* Maurice Sendak (1928-2012), autor do emblemático livro Onde vivem os monstros (a 1ª edição é de 1963), foi uma figura essencial na história da literatura infantil. Escreveu e ilustrou quase 50 livros e ganhou vários prêmios por suas obras. A citação que selecionamos está aqui (em espanhol): http://bit.ly/1DXmTd6

** Nem deveríamos ter de falar sobre racismo, porque, por lei, isso é crime. Mas, ainda assim, existem estudos que mostram como até mesmo em livros didáticos (infeliz e absurdamente) há uma representação pejorativa de negros, como se pode ler aqui: http://bit.ly/1vAf2PV

*** Nós mencionamos Monteiro Lobato e sabemos que em seus livros há um forte e sério racismo e, também, machismo, mas há de se considerar o momento histórico em que sua obra foi escrita. E discutir sobre isso com uma criança é uma baita oportunidade para mostrar a ela que – ufa! – o mundo muda.

 

Referências

BRENMAN, Ilan. A condenação de Emília: o politicamente correto na literatura infantil.Belo Horizonte: Aletria, 2012.

LAJOLO, Marisa. Literatura infantil brasileira e estudos literários. Estudos de Literatura Brasileira Contemporânea, n. 36. Brasília, julho-dezembro.

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