Foi por um único ano que eu dei aula. Fui professora regente de uma turma de crianças de 3 e 4 anos de idade, fase gostosa de lidar — mas sou suspeita, penso que toda fase é gostosa, cada qual com seu encanto e sua peculiaridade. Com 3, 4 anos de idade, a criança já se entende como “eu”, como uma pessoa única e diferente de todas as demais e, exatamente por isso, quer descobrir quais são as diferenças entre si mesma e os outros.

Lá estava eu, recém-formada em Pedagogia, lidando com uma turminha cheia de crianças que faziam de tudo para conseguir o que desejavam. Era bonito ver aquelas pessoas, ainda tão pequenas, enfrentando tudo e todos, erguendo os braços e as vozes em busca do que queriam. E o desejo, geralmente, era simples: queriam brincar.

Uma das brincadeiras preferidas era a de monstro. Gritos, caretas, mãos levantadas e, pronto, cada um deles era um monstro. Fiz uma pesquisa sobre o tema e percebi que aprendemos sobre a nossa humanidade quando lidamos com a monstruosidade. O estudo sobre os monstros pode ser inserido na filosofia das diferenças,* pois o que entra em jogo é a alteridade, a nossa capacidade de compreender o outro como diferente, ou seja, exatamente o que as crianças desta idade precisam para entenderem a si mesmas melhor. Aproveitei o interesse pela brincadeira e iniciamos, eu e as crianças, um projeto de estudo sobre monstros.

Foram feitos inúmeros trabalhos manuais envolvendo monstros, em vários suportes diferentes (argila, gesso, garrafa pet, sucata de metal, papel, sombra, etc.), sempre com boa aceitação das crianças, motivo pelo qual o projeto perdurou o ano inteiro. Estes trabalhos eram fundamentais, pois crianças desta idade ainda têm o pensamento concreto, não alcançam os conceitos por palavras, mas por ações e por… coisas! Coisas materiais, concretas. Os monstros que construímos foram a parte bonitinha e concreta que ajudava as crianças a elaborar o pensamento sobre as diferenças, mas o principal é que a inteligência de perceber o diferente, o outro, estava sendo desenvolvida.

A gente não pensava nos monstros no sentido mítico ou comportamental, era um estudo mais conceitual; monstros não são gente, monstros não são animais, monstros assustam pelo que são e nem sempre pelo que fazem – a literatura infantil tem diversos livros com monstros bonzinhos, legais, e até amigos. As crianças chegaram até a discutir sobre a bondade dos monstros e a maldade humana, quando uma criança teve sua casa assaltada.

Mas a primeira ação não foi o trabalho manual, mas, sim, a leitura de um livro infantil que eu tinha em casa e levei para ler para eles: Vai Embora, Grande Monstro Verde!, de Ed Emberley, publicado pela Brinquebook. O interesse por este livro e pela monstruosidade era tanto, que fiz uma pesquisa de quais livros infantis sobre monstros eram adequados às crianças para, no momento da leitura, ler para eles livros com esta temática. Então, foi a leitura literária que pautou o projeto como um fio condutor.

Segui em frente com este projeto de estudo por meio da literatura infantil pelo fato de ser a maneira mais interessante de as crianças terem contato com monstros de diversas formas e de variados comportamentos. Os textos e as ilustrações, juntos, possibilitavam o encontro com uma diversidade enorme de monstros. Em um dos livros, tinha até uma mamãe que virava monstro!** E como é interessante ler para crianças! Escutar seus comentários, pensar em suas interpretações… Por meio da literatura, as crianças entraram em contato com monstros quase diariamente.

Ao final do ano, vivi um momento muito bacana, emocionante, até, marcado por um diálogo meu com as crianças, logo após a leitura do livro O Domador de Monstro, da Ana Maria Machado (editora FTD). Quando Tadeu*** perguntou “mas o que é monstro, hein???”, buscando o conceito mesmo de monstro, claro, eu achei o máximo! Porque ele verbalizou exatamente o que estávamos estudando, mesmo sem que essa ideia fosse totalmente clara, ou seja, eu não falei pra eles no início do ano: “a partir de agora, nós vamos pensar sobre o que é um monstro”. Nós simplesmente tínhamos o projeto Monstros, líamos livros e construíamos monstros. Ponto. E eles se divertiam.

Com a pergunta, os colegas responderam que é assustador e dá medo. Para instigá-los ainda mais, fiz o contraponto: “mas só monstro é assustador? Tem animal que é assustador, também, como a cobra”. “E leão” — eles acrescentaram — “e aranha”! E seguiram em frente, sem intervenção minha, com a ideia de conceituar monstro, pensando entre eles em pontos e contrapontos:

“É mau.”

“Mas ladrão também é mau!”

“Monstro é peludo.”

“Não! Tem monstro de espinho, de meleca…”

“Monstro de cinco trombas!!!”

Até que… “Já sei!” – falou, animada, uma das meninas: “Monstro é um bicho que é feito de coisas que nem os animais são feitos e nem a gente é feito”.

Percebi uma interrogação no ar (e nos rostinhos de todos eles) e perguntei: “Como assim?”. Ela se explicou melhor: “Por exemplo: tem monstro que tem cinco trombas. Tem animal que é feito com tromba, mas nenhum animal tem cinco trombas”. Depois, todos seguiram em frente, elaborando as ideias:

“É! E nenhum animal é feito de meleca!”

“E nem a gente!”

“Nenhum animal tem um mooooooonte de olhos, um mooooonte de pernas, de braços…”

“É! E é por isso que é assustador e a gente fica com medo!”

A interrogação nos rostinhos das crianças foi sendo substituída por um brilho nos olhos típico de quem aprende. Eu retomei a ideia da menina, só para amarrarmos os pensamentos: “Então é isso? Monstro é um bicho que é feito de coisas que nem os animais são feitos e nem a gente é feito?” e todos concordaram, satisfeitos com o conceito.

Eram crianças de 3 e 4 anos. Não havia mais dúvidas de que houve um grande aprendizado ali, depois de tantos monstros feitos, vistos, pensados, lidos, vividos.

Penso que o fundamental para que as crianças chegassem a um pensamento elaborado como esse foi a união de dois espaços: o espaço para imaginação que a literatura deixa, provocando novos pensamentos — um trabalho interno que só mesmo a imaginação propicia; e a criação manual que as crianças faziam de seus próprios monstros, o que permitia a elaboração concreta destes pensamentos, um trabalho com resultados externos. Em um processo de idas e vindas que caracterizam a aprendizagem, as crianças internalizaram e externalizaram monstros, num encontro permanente com eles por meio da literatura e da criação manual. Com isso, chegaram em um conceito tão límpido e claro que eu não encontrei sequer nos textos em que estudei sobre monstros e monstruosidade, no início daquele ano. Foi bonito de ver!

 

Por Isabela

 

*****

 * Para conhecer um pouco sobre a filosofia da diferença, sugerimos este artigo, do Sílvio Gallo: Eu, o outro e tantos outros: educação, alteridade e filosofia da diferença.

** HARRISON, Joana. Quando mamãe virou um monstro. São Paulo: Brinquebook, 1996.

*** nome fictício.

 

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