Foto: Editora Pipoca

Lajolo

Para Lajolo, quem publica livro digital deve repensar as estratégias para se apresentar e conquistar um novo público. Ela conta que, como editor, Monteiro Lobato revolucionou a distribuição de livros no Brasil, buscando expô-los nos mais diferentes lugares, até que o objeto livro passasse a ser visto como produto de desejo.


Entrevista com Marisa Lajolo, professora, crítica literária e atual curadora do Prêmio Jabuti [1]

Por Marcelo Jucá

 

Entre puns, monstros, fadas e zapt-tummm, o papel dos livros infantis é cada vez mais notável. Eles entraram para a turma da literatura; estão mais inteligentes, mais bonitos, com novos formatos, temas variados e ilustrações que já conseguem fugir do óbvio. Além disso, como aponta a professora e crítica literária Marisa Lajolo, os livros infantis são a melhor porta de entrada para novas linguagens, entre elas, os livros digitais, pois, nesse âmbito, os diálogos entre as linguagens só aumenta, o que explica o fascínio de Lajolo pelo formato. Ela relembra:

“O que sempre me impressionava na literatura infantil era o texto, geralmente casado com a imagem. […] A literatura infantil, digamos, sempre foi um gênero pioneiro na multimidialidade, na pluralidade de linguagens, no tamanho da letras, no tipo das letras, na diagramação; tudo isso era muito mais cuidado do que era naquilo que eu e a Regina Zilberman[2] chamávamos de ‘A Outra’ [outros gêneros literários]”.

Se concordamos que a literatura infantil deixou de ser tratada como criança, qual é a situação atual do livro infantil no meio digital?

Aos poucos, o formato digital vem ganhando um espaço significativo por dialogar com mais intensidade com os nativos digitais ao oferecer, além da história e da ilustração, recursos de áudio, vídeo e interações, que, em alguns casos, são surpreendentes — e é tão bom quando isso acontece! Mas é preciso manter-se atento ao limite tênue que separa livros e jogos no meio digital.

“Começamos a perceber que o mundo muda, e que a literatura infantil é muito mais rápida que a literatura não infantil para se plugar às alterações do mundo”, destaca Lajolo.[3]

Pequenas revoluções

Nas inúmeras metamorfoses dos livros infantis, no percurso com as publicações pop-up, 3D, livros-álbum e assim por diante, o formato digital é, de longe, o que tem provocado mais rebuliço. Será por ser o que transparece mais mudanças? Será possível comparar a revolução da prensa de Gutenberg com a revolução dos digitais? Para Marisa Lajolo, é possível, sim, fazer esse tipo de comparação. Ela diz que, “quando os livros começaram a ser impressos na prensa do Gutenberg, foram várias as reações contrárias. Professores diziam ‘olha, agora o livro é barato, o que eu faço aqui na classe?’, e isso vindo de professor universitário da Europa do século XV! Houve casos, registrados em documentos, de reis que encomendavam a compra de um livro e, quando vinha o livro impresso, ele não aceitava, porque aquilo não era um livro à altura de um rei”.

De acordo com Lajolo, é muito recente na história do Brasil o interesse pelo livro enquanto objeto. E justo nesse momento surge uma revolução que coloca em dúvida se tal objeto continuará existindo ou não. Mas a professora não dá bola para essa discussão, que vez e outra retorna, sobre o livro digital tomar o lugar do impresso: “O livro impresso não acabou com a prensa manual. O livro impresso não acabou com o manuscrito”.

Além de destacar o livro digital como um rico incentivador de leitura, Lajolo destaca, ainda, como alguns elementos do impresso se manifestam no meio digital:

“Os primeiros livros digitais resgatam a tradição dos primeiros livros impressos, como ao virar a página, tem aquele movimento. Então, há um rastro do suporte anterior nas novas linguagens. Isso é muito bonito, e é uma pena que se esteja prestando pouca atenção a isso.”

A partir dessa transição, Lajolo cita as pequenas revoluções no mundo da leitura que os livros digitais, e não apenas os infantis, agregam, como a possibilidade de se conhecer mais sobre o ato da leitura do que quando se lê apenas no suporte físico.[4]

O livro digital, para o bem e para o mal, explora os gostos do leitor e abre a possibilidade para conhecermos o gosto do outro, quando,  de repente, encontramos um trecho marcado, com a informação de que um determinado número de leitores gostou e marcou aquela mesma parte para si. Sobre isso, Lajolo diz:

“A vida intelectual fica mais aberta. Aparece o anúncio de que pessoas que compraram este livro também compraram este outro. Você também vê os trechos dos livros que os outros também acharam importante. Essas leituras, que antes eram de fórum privado, íntimo, no livro digital existe a possibilidade de serem públicas.”

A professora também cita a vantagem de se conseguir mesclar a linguagem oral e a escrita como uma conquista dos livros digitais, ressaltando que é no formato digital que essa mescla ficou mais bem resolvida até agora. “Claro que havia livros com CDs coloridos que eu comprava para as minhas filhas, mas uma coisas é você ter um CD que você tira, põe e vai ouvir, e outra coisa é você escolher na tela se quer ouvir. E outra coisa ainda é escolher na tela em que língua você quer ouvir”, disse Lajolo, referindo-se a Dans mon rêve, livro infantil digital vencedor da Feira de Bologna de 2012, que pode ser lido em francês e em inglês.

Educação, cultura e mercado

Para Lajolo, quem publica livro digital deve repensar as estratégias para se apresentar e conquistar um novo público. Ela conta que, como editor, Monteiro Lobato revolucionou a distribuição de livros no Brasil, buscando expô-los nos mais diferentes lugares, até que o objeto livro passasse a ser visto como produto de desejo. Em todos os lugares, exceto o açougue, onde poderiam ficar sujos, ela destaca e complementa: “Acho que a indústria brasileira  em geral não faz isso, não usa a mídia para divulgar livro direito”.

A falta de cultura livresca brasileira afeta tanto o mercado quanto o uso do livro na educação. E não é o livro digital que, de uma hora para outra, vai salvar tudo isso; afinal, é preciso orientação e formação para que os recursos dos livros digitais possam ser explorados de maneira mais completa.

Lajolo comenta que o recurso de áudio no livro digital pode trabalhar a questão educacional do preconceito linguístico. “A questão da locução é muito ruim no Brasil. A locução digital infantil tem que ser especial. Tem que saber ler, ter sotaques diferentes. […] Temos, hoje, questões técnicas disponíveis, e a gente não se deu conta da totalidade do uso que elas podem ter.”[5]

Prêmio Jabuti

À frente da curadoria do Prêmio Jabuti há quase dois anos, Marisa Lajolo é uma das mais favoráveis representantes da entrada do livro digital na premiação. “Achei que uma forma de trazer essa discussão para um nível mais amplo seria incluir entre as categorias premiadas pelo Jabuti o livro digital”, ela diz.

Como revela, a ideia já vinha sendo discutida na gestão anterior, e o principal ponto não era aceitar ou não o digital, mas como incluí-lo. A sugestão de incluir os livros infantis partiu dela, por ser o segmento em que, até hoje, ela encontrou mais recursos interessantes a serem explorados.

E foi neste ano, no 57º Prêmio Jabuti, que foi anunciada a categoria experimental livro infantil digital. No entanto, a questão levantada por Leonardo Neto, do Publish News, sobre os livros digitais não participarem da categoria livro do ano incomodou muita gente.[6]  O fato de ser uma categoria experimental parece ser a resposta.

Essas novidades geraram debates interessantíssimos. No apanhado geral de opiniões, entre críticas e elogios de diferentes tipos, dá, sim, para dizer que houve um consenso de que o reconhecimento do livro digital pelo Jabuti é uma vitória. Por outro lado, uma série de outras questões foi levantada por profissionais que vivenciam a rotina da produção digital editorial, principalmente no que diz respeito ao envio das obras aos jurados.

E foram as críticas e sugestões recebidas que fizeram a organização do Prêmio propor algumas alterações no regulamento. “Acabamos isentando a ficha catalográfica e o ISBN […]. Chegamos a um acordo que, por ser uma categoria experimental, valia correr o risco”, explica Lajolo.

A respeito do modo de envio, a professora concorda que é preciso chegar a um consenso, principalmente por causa da complexidade das inscrições, já que alguns arquivos abrem de forma diferente nos diversos suportes possíveis.

Para Lajolo, o catálogo digital ainda está nascendo, e em breve conquistará novos públicos. Para isso — e para a premiação no Jabuti —, a interação deve garantir que se acrescente algo ao texto. Ela argumenta: “Se você põe ‘o cachorro latiu’ e ele faz au-au-au, tudo bem, você está interagindo, é uma outra linguagem, mas não está acrescentando significado a coisa nenhuma; então, a ideia é que o livro digital exija uma complexidade, uma pluralidade maior de interações. Não é para uma linguagem apenas duplicar o que a outra já disse. A gente sabe que o livro digital pode gerar esse tipo de interação, é algo que está sendo avaliado”.

App versus Livro versus Jogo

É natural que, nos próximos anos, o livro digital se desenvolva tanto como categoria do Jabuti, quanto como produto de desejo no mundo. Enquanto isso, uma última questão discutida com Marisa Lajolo foi: afinal, o que é o tal livro infantil digital? Mesmo para os familiarizados com o assunto, vale citar as linhas tênues que diferenciam um livro digital de um App livro, e as nem tão tênues linhas que o diferenciam de um App jogo.

Os livros digitais infantis podem ser adquiridos nas livrarias iBook Store e Google Play Livros, principalmente, mas também há outros aplicativos de leitura vinculados a livrarias. Já os App livros e os Apps jogos dividem espaço nas muito mais povoadas App Store e Google Play.

Para quem não trabalha com a produção de livros digitais, pode parecer preciosismo, mas é preciso entender que cada um desses  produtos digitais envolve uma produção diferente, que pode ou não ser atrelada à produção de um material impresso e, por isso mesmo, cada editora faz a sua escolha de formato de acordo com a estratégia de marketing, visão pedagógica ou verba. Ou tudo junto. Se um livro impresso pode ser distribuído em diversos canais, um livro digital, para ser distribuído em canais diferentes, precisa ser feito em um formato compatível com cada um desses canais. O conteúdo do livro, atualmente fica no centro de um ciclo produtivo.

CICLO PRODUTIVO DO LIVRO

Lajolo afirma que todo livro digital interativo é um aplicativo, mas nem todo aplicativo é um livro digital interativo, e justifica: “Na cultura ocidental, na brasileira, com certeza, livro é visto como uma coisa séria. É uma coisa de estudo, quem lê vale mais. E o jogo é uma coisa de prazer, uma coisa de divertimento. E não sei bem se é uma questão de mercado apresentar uma coisa como game, como diversão, não para educação, para elevação da pessoa. […] Entretenimento só não é mais rentável do que armas e drogas, mas, olha aí, ele é o terceiro. A educação e tudo mais está lá embaixo”.

São muitas ansiedades e muitas dúvidas, e enquanto tudo se desenrola, o melhor a fazer é continuar os questionamentos e deixar que as crianças leiam livros. Em breve, teremos o resultado do prêmio e, ano que vem, veremos como essa história se desenrola.

 

 *****

 

[1] É importante ressaltar que, devido ao corrente processo de avaliação das obras inscritas no 57º Prêmio Jabuti, ao longo da entrevista não foram mencionados quaisquer livros digitais infantis brasileiros.

[2] Regina Zilberman também é pesquisadora de literatura infantil e escreveu, junto com Marisa Lajolo, o clássico livro Literatura Infantil Brasileira: História e histórias, publicado pela Editora Ática.

[3] Publicamos um texto sobre a inserção da linguagem digital na literatura infantil que pode ser lido aqui [http://bit.ly/1ErDeSN].

[4] Felipe Lindoso comenta, neste texto [http://oxisdoproblema.com.br/?p=2728], as dificuldades de se estabelecer o perfil do leitor brasileiro, pois as pesquisas não estão dando conta da diversidade de leituras, tanto de livros digitais, quanto de editoras independentes ou de produção de auto-publicação.

[5] Publicamos um texto sobre a contação da história nos livros digitais que pode ser lido aqui [http://bit.ly/PFNAgn].

[6] A CBL publicou o áudio com a palestra da professora Lucia Santaella no lançamento do Prêmio Jabuti [https://soundcloud.com/camarabrasileiradolivro/evento-na-integra-1]. Este questionamento do Leonardo Neto pode ser ouvido a 1hora e 20 segundos do áudio.

 ccbync3br

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