Imagem: Marcella Briotto – Ilustração para o livro Era uma vez… uma bruxa!

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Consideramos que os contos de fadas são importantes, sim, mas não questionar os estereótipos desses contos seria ignorar todo o processo de conscientização que vem acontecendo. Eles foram suavizados quando passaram a ser voltados para o público infantil. É claro que não vamos sugerir que se alterem os contos em si, mas é importante a consciência de que eles fazem parte de um momento histórico específico.


Vamos fazer uma confissão: temos um orgulho danado dos títulos que chegaram às nossas mãos quando abrimos a editora e começamos a buscar autores. Queríamos publicar alguns livros que não pudemos, outros tantos passaram nas nossas mãos e, por vários motivos, foram esses que ficaram. E nos orgulham. Hoje, vamos escrever sobre um desses orgulhos: Era uma vez… uma bruxa, da Carla Chaubet.

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Imagem: Capa do livro Era uma vez… uma bruxa!

Esse livro tem uma escrita interessante, um humor muito refinado que lida com os estereótipos. É claro que trata da história de uma bruxa, mas ele questiona a ideia de a bruxa ser sempre má, sempre feia, e de a princesa ser perfeita, com um jeitinho que toda menina deve almejar. A autora lidou com esses estereótipos todos de uma maneira que não chega a ser caricata, mas usando a narrativa e a própria história para colocar em xeque estereótipos que são muito arraigados na nossa cultura.

Os contos de fadas são importantes para as crianças lidarem com as dificuldades cotidianas, e a gente não defende, de forma nenhuma, que eles sejam censurados ou abolidos, pelo contrário. Sabemos que na maioria deles, originalmente, havia situações violentas, pois os contos de fadas eram de fato contos populares, seu público era também adulto. Mas à medida que as crianças deixaram de ser vistas como adultos em miniatura, e as especificidades desse momento da vida passaram a ser mais levadas em conta, as situações violentas dos contos de fadas foram amenizadas e, com isso, os estereótipos dos personagens foram reforçados. O ponto é que, conforme o mundo muda, algumas ideias que eram bem aceitas, deixaram de ser. Ainda bem!

Hoje em dia, isso ficou muito claro com a popularização da internet. Como qualquer pessoa com acesso à rede pode publicar o que considerar importante, passou a ser possível um movimento grande de visibilidade de pessoas que viviam em uma cultura que era silenciada por meios de comunicação de mão única* e que gerava um sistema opressor. A cultura negra, por exemplo, era ainda mais silenciada pelo racismo estrutural do que hoje, pois as informações vinham de um ponto específico e, com isso, não existia uma pluralidade de visões como existe atualmente.

A internet trouxe a possibilidade de o negro falar sobre ele mesmo e mostrar para todos que estiverem dispostos a se questionar e a desconstruir conceitos o racismo que eles enfrentam todos os dias, assim como propiciou às mulheres o mesmo espaço e, com isso, passamos a ouvir a voz da mulher com mais frequência em relação às suas experiências. Até então, essas vozes eram silenciadas; é por isso que Paulo Freire usava a forte expressão “cultura do silêncio”.

Ele viveu em um momento em que não havia a contrapartida que a internet nos propicia; então, toda a obra e as ações dele bateram de frente com a via de mão única. Freire colocou em pautaa escuta daqueles que não tinham voz e, com isso, ajudou a mostrar a importância da autonomia e da emancipação por meio da conscientização de que, não, as pessoas não eram menos importantes por serem negras ou pobres ou mulheres, o fato é que elas eram inferiorizadas por um grupo de pessoas que tinham maior poder do que elas e que utilizavam a via de mão única dos meios de comunicação para eternizar esses estereótipos opressores. Por isso Paulo Freire é tão querido por uns e tão detestado por outros.

Ele faleceu já há um tempo, mas imaginamos que estaria feliz com esse movimento todo que acontece em rede. Estamos caminhando, por mais que ainda falte um longo caminho, estamos caminhando!

Levando tudo isso em conta, consideramos que os contos de fadas são importantes, sim, mas não questionar os estereótipos desses contos seria ignorar todo o processo de conscientização que vem acontecendo. Eles foram suavizados quando passaram a ser voltados para o público infantil. É claro que não vamos sugerir que se alterem os contos em si, mas é importante a consciência de que eles fazem parte de um momento histórico específico, em que mulheres que não viviam com homens não eram socialmente aceitas.

Hoje, essa visão sobre as mulheres não é mais aceita. Bem… ainda seguimos num processo de construção de um outro papel feminino, mas, agora, quem entende a opressão que sempre existiu e busca sua emancipação tem voz..

É muito interessante observar que, ao chamar alguém de “princesa”, o significado implícito é de uma mulher comportada, bonita, bacana, legal, gente boa… Em geral, “princesa” não faz nada, tem quem faça por ela, mas só é de fato “princesa” a mulher que deixa alguém fazer por ser incapaz de fazer ela mesma; se o outro fizer porque ela manda, aí a imagem atrelada a essa mulher passa a ser a de “madrasta”. E “bruxa”, remete a que tipo de mulher? Uma mulher feia, má, que deve ser queimada na fogueira pelas mesmas pessoas que vão salvar as princesas. E quem vai salvar a linda princesa? O príncipe! Um homem bonito e rico, porque os homens também estão inseridos, claro, nessa cultura de padrão de beleza que é estabelecida historicamente.

E o livro da Carla está inserido nesse nosso momento histórico de questionamento de estereótipos como esses. Ele vem com uma quantidade grande de produções voltadas para crianças que questionam o papel da mulher, questionam quem são as heroínas e por que elas são reconhecidas como heroínas… Há agora um boom de produções assim, até mesmo de grandes empresas de entretenimento que sempre trabalharam absolutamente em cima desses estereótipos. Isso é muito importante, e é bom que exista! Era uma vez… uma bruxa! faz parte desse movimento. Ele não foi escolhido por nós porque “nossa, precisamos ter um livro que faça parte desse boom”, mas porque foi um texto que chegou até nós e, “poxa, que texto bacana!”.

Na verdade, escolhemos os textos com base em diversos critérios bem mais técnicos em termos editoriais e pedagógicos, mas quando começamos a lidar com eles no dia a dia, na produção das ilustrações, do áudio, etc., começamos a mergulhar mais fundo na história e percebemos com mais clareza o que tinha ali, além dos pontos técnicos que nos agradavam.

Em todos os livros é assim, basta nos aprofundarmos neles durante o processo de produção que enxergamos muitas coisas além do que já tínhamos visto. É claro que, desde o começo, sabíamos que esse texto trabalhava quebra de estereótipos, mas não tínhamos ainda nos aprofundado na relação com esse conto, que é grande e, portanto, para se sustentar, exige uma escrita apaixonante.

Além disso tudo, as facetas de humor que ele traz apresentam algo muito importante para as crianças, pois o humor é uma das operações mentais mais difíceis que existem. Ela é humana — os animais brincam, mas isso não significa que tenham humor — e é uma coisa que se aprende ao longo do tempo, não é uma característica inata.

Mas o humor não é um só, existem várias formas de humor. Uma criança pequena, por exemplo, gosta de ver personagens levando tombo, enquanto uma criança maior já não vê tanta graça nisso. É importante que as crianças conheçam outras formas de humor, mais refinadas, que venham também para questionar e para permitir que elas consigam enxergar além do papel estereotipado e opressivo que faz parte de alguns tipos de humor.

Era uma vez… uma Bruxa! chega ao ponto de quase ridicularizar aquela princesa dos contos de fadas, de quase ridicularizar os príncipes, os cavaleiros salvadores… Mas o interessante é que para um pouco antes. O texto chega num humor que não é ofensivo; os próprios personagens se questionam: “mas, espera aí, esse aqui não era o meu papel? O que eu tenho que fazer, então, se meu papel mudou?”. Vamos lembrar de novo de Paulo Freire, que dizia que há alguma coisa errada também quando o oprimido se torna o opressor, e a Bruxa questiona todos os papéis, mas sem opressão. No livro, o que a autora faz é colocar os personagens tradicionalmente principais numa posição também de questionamento sobre eles mesmos ao enxergar o outro (no caso, a outra, a Bruxa) de uma forma diferente. E quando enxergamos o outro de forma diferente, é difícil não reavaliarmos nossa visão de nós mesmos.

Essa inversão de papéis também é interessante para as crianças, pois, em um dado momento do desenvolvimento, elas têm dificuldade em lidar com o questionamento das regras; então, é importante que tenham acesso às inversões para passar por essa etapa. Afinal, o que são estereótipo senão regras?

Por Suria e Isabela

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* Por meios de comunicação nos referimos não só a jornais, revistas e programas televisivos, mas também a meios mais sutis, como livros didáticos.

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