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“Quem não se forma leitor até a adolescência, dificilmente o será mais tarde. A escola é o grande meio para que isso aconteça, até porque a reprodução de “famílias leitoras” é ainda mais difícil. Os atrasos na educação provocam dificuldades irreversíveis. Acredito que o importante, no caso dos livros, não é apenas a forma de edição. A adequação dos diferentes formatos, para atender diferentes canais de comercialização e acesso ao público é o fundamental. Nesse sentido, o digital tem efetivamente um papel importante a cumprir.”


Marcelo Jucá entrevistou Felipe Lindoso. Jornalista, tradutor, editor da revista Machado de Assis, consultor de políticas públicas para o livro e a leitura, Lindoso ainda mantém o blog O Xis do Problema, onde publica textos referentes a estas políticas e ao mercado editorial. A entrevista abordou questões sobre o papel social das editoras e ações de incentivo à prática de leitura, sobre o acesso aos livros, a formação de leitores e, claro, sobre os livros digitais.

 

“Ler não é obrigação”. O senhor afirma que a leitura é uma atividade lúdica e necessária, mas também é algo tão concreto quanto o mercado da soja. Então, a pergunta fundamental neste momento é: qual é o papel social das editoras? E ainda: as editoras de livros digitais podem trazer alguma contribuição a este papel?

O primeiro e mais básico papel social das editoras é o disponibilizar a mais ampla oferta de títulos possíveis, pelos meios mais adequados. A diversidade bibliográfica é um componente importante da liberdade de expressão.

Mas cabem algumas precisões.

1 – A diversidade de títulos e de autores não significa que todos terão a mesma repercussão. No livro “Livros Demais”, o filósofo mexicano Gabriel Zaid destaca que cada livro tem um “público ideal”, e que a grande questão é fazer que esse público o encontre. No prefácio que escrevi para a edição da Summus (a tradução é minha) assinalei: “Existe espaço tanto para livros sobre criação de minhocas transgênicas quanto para os best-sellers da vida. Até porque, como o mundo dos livros reflete o mundo real, a imensa gama de interesses humanos pode ser sempre objeto de livros. Em cada um desses casos, entretanto, o que importa saber é: a) as minhocas transgênicas certamente terão um público menor, por mais fundamentais que o autor considere as questões que apresenta; b) fazer cada livro chegar ao seu público é que é o busílis; c) fazer que cada vez mais livros encontrem seus leitores é o desafio final”.

2 – As editoras independentes e de pequeno porte (das quais há sempre uma alta “natalidade” e taxa igualmente alta de “mortalidade”) são, em grande medida, as responsáveis pela bibliodiversidade. Experimentam mais, enquanto as grandes se preocupam sempre em caçar o próximo “best seller”. Só que a mortalidade acaba deixando indisponíveis boa parte dos títulos. Daí que o formato digital representa hoje uma saída importante para a manutenção dessa bibliodiversidade. Além de todas as outras questões, publicar versões digitais significa aumentar a perenidade dos livros publicados.

3 – Acredito que, além de desenvolver linhas próprias nas editoras digitais, um nicho que poderia ser bem interessante é o de resgatar os “esgotados” e os “fora de catálogo”. Em parte isso também poderia ser favorecido por políticas públicas como a desenvolvida pela Biblioteca Nacional Francesa, que digitalizou tudo que foi editado ali no século XX e abriu um espaço para a republicação digital (com o recolhimento dos direitos para um fundo de desenvolvimento) para qualquer obra “órfã” — as que não se sabe se já caíram ou não em domínio público).

Quando o PNBE foi cancelado, o senhor mencionou que foi uma pena ter visto as editoras reclamando apenas da perda de renda, deixando de lado o papel social. Ao mesmo tempo, na Editora Pipoca, constatou-se que quase não há participação de editoras em editais menores, que buscam ações de incentivo à leitura e não só grandes financiamentos para publicações. Como as editoras devem trabalhar para maior colaboração na formação de leitores e no incentivo à leitura? Quais seriam as ações ideais das editoras nesse sentido?

É bom lembrar que as seleções de títulos das várias versões do PNBE — salvo as primeiras versões do Paulo Renato e do Cristóvão Buarque — abriram espaços para as editoras menores. Isso foi importante. Considero que as compras governamentais são — e podem ser muito mais — meios de equalização da disponibilização da bibliodiversidade. Não apenas nas escolas, mas principalmente através das bibliotecas públicas, as pobres coitadas de todas as verbas. Assim, lutar pelo fortalecimento das bibliotecas é fundamental.

Do ponto de vista prático, e considerando o lado comercial das editoras — pequenas, médias e grandes — acredito que a melhoria da “descobribilidade” (palavra horrorosa, mas ainda não achei outra melhor) dos livros, com o aperfeiçoamento dos metadados, para que os livros possam ser realmente descobertos pelo seu “público ideal”. E a ampliação da diversidade de formatos: impressões em máquinas planas para tiragens médias, impressão sob demanda para atender públicos em localidades distantes e a edição digital. Livro que não é “achável” pelos seus leitores potenciais é livro que não cumpre seu papel social.

No fim do mesmo artigo que se refere ao PNBE, o senhor faz um apelo: “professores, escritores, ilustradores e editores precisam se mobilizar para evitar que essa tragédia [de desvalorização do papel social das editoras] se concretize”. O que fazer? Como fazer? Qual é a chance de cair no mesmo exemplo dos ministérios, de um feudalismo narcísico das editoras, como contornar os interesses apenas em lucro e visar também o incentivo à leitura?

Gostei do “feudalismo narcísico”… É um problema real. Cansei de ouvir, quando trabalhava na CBL e apresentava propostas de incentivar os programas de bibliotecas, alguns editores (pequenos, médios e grandes, diga-se de passagem) perguntarem logo: Mas quanto vou vender dos meus títulos? Ou seja, não percebiam que a ampliação do acesso — mais bibliotecas, mais livros nas escolas — é a abertura de um “campo” onde, sim, se dá a disputa pelo leitor/comprador final. Mas é a ação coletiva que pode ampliar o espaço. A participação e as exigências de ações consequentes das entidades do livro (são tantas, já são feudalizadas…) é a primeira etapa. Daí em diante cabe a cada uma se posicionar melhor. As grandes editoras podem ter eventualmente mais poder de fogo, mas as pequenas e médias não são tão indefesas. Podem desenvolver mecanismos de uso das redes sociais, explorar ao máximo a divulgação de seus títulos em nichos específicos, tornar seus livros acessíveis por todos os meios possíveis de comercialização, onde o digital, acredito, assumirá um papel cada vez mais importante.

E o senhor comenta também que “não há como ‘reconquistar’ essa perda de qualidade de ensino”, sobre os meninos que não leem agora os livros de literatura, e que consequentemente não os lerão depois. De que forma os digitais podem trabalhar positivamente neste sentido? Desse ponto de vista, é possível fazer um mínimo resgate? Livros digitais ajudam a formar novos leitores?

Realmente, quem não se forma leitor até a adolescência, dificilmente o será mais tarde. A escola é o grande meio para que isso aconteça, até porque a reprodução de “famílias leitoras” é ainda mais difícil. Os atrasos na educação provocam dificuldades irreversíveis.

Acredito que o importante, no caso dos livros, não é apenas a forma de edição. A adequação dos diferentes formatos, para atender diferentes canais de comercialização e acesso ao público é o fundamental. Nesse sentido, o digital tem efetivamente um papel importante a cumprir.

As iniciativas colombianas mostram a importância de decisão política para o incentivo à leitura. Há também iniciativas privadas, como a do argentino Boris Spivacow e até mesmo de Monteiro Lobato, que  indicaram bons resultados para que os leitores encontrassem seus livros. Qual seria o equilíbrio ideal entre estas duas iniciativas, a pública e a privada?

Incentivo à leitura é algo que se desenvolve em dois eixos: 1) programas de incentivo, variados, avaliados e sistematizados (tudo é válido, mas eu quero saber quais os resultados de cada tipo de iniciativa); 2) ACESSO é fundamental e — digo eu, talvez chocando muita gente — mais importante que os programas. Que adianta incentivar a ler se os livros são inacessíveis? Acessibilidade é um troço complicado. Lobato tentou vender livros em açougues e farmácias, não deu certo. Mas o fato é que a rede de livrarias é precária, tecnicamente atrasada e amadora em muitos casos e, principalmente, faltam bibliotecas, onde os livros são gratuitos para quem os lê.

Assim o negócio é o seguinte: não existem programas de incentivo para novas livrarias e a logística é cara e mais precária ainda — e isso é algo que exige políticas públicas. Por outro lado, editoras não investem na ampliação de seu mercado, estão eternamente na disputa pelos poucos (proporcionalmente) leitores que se informam e frequentam as livrarias. Sabe uma coisa que acho absurda? As dezenas de caminhões que saem do Rio e de S. Paulo levando livros para as cidades do Nordeste. Livros que poderiam eventualmente ser impressos sob demanda nas principais cidades. Por outro lado, os livreiros não se organizam para consolidar pedidos e conseguir melhores condições das editoras (reconheço que existem dificuldades fiscais para isso no emaranhado da nossa legislação fiscal). Falta criatividade e iniciativa dos dois lados. Por outro lado, as editoras digitais têm que explorar melhor os diferentes formatos, inclusive os telefones — além dos tablets, laptops e os leitores digitais, sem dúvida os mais confortáveis para a leitura — e criar novas formas de comercialização de seus produtos. Experiências por aí em curso: aluguéis, programas das telefônicas (a da Vivo, acredito, já disponibiliza um número grande de títulos). Algumas dessas formas se consolidarão, outras não. Mas quem espera sem experimentar vai acabar sentado na sarjeta da inovação e da busca dos leitores.

Especificamente sobre editoras de e-books, mas que trabalham realmente com edição e não apenas com auto-publicação, quais são as impressões deste mercado ainda incipiente no Brasil dos livros digitais? Que tipo de vantagem e desvantagem vê no formato e como percebe que os livros digitais podem alterar o mercado editorial brasileiro?

Em primeiro lugar, acho um equívoco falar em “alterar o mercado”. O desenvolvimento do digital alhures mostra que a convivência de formatos é o que prevalecerá. O exclusivamente digital está destinado, no meu entender — particularmente ao livro técnico-científico, sobretudo às revistas científicas — que hoje, praticamente não existem mais na forma impressa. As editoras digitais — tal como as trade tradicionais — nem se dão conta do que acontece na área do STM, na qual os avanços tecnológicos e as formas de comercialização são muito mais avançadas.

As digitais — não apenas as brasileiras — não se deram plenamente conta de alguns fatores de desenvolvimento onde esse formato é crucial. Cito dois: o EPUB5 que, com pequenos incrementos técnicos, permite a conquista de um segmento muito significativo de leitores deficientes visuais. Prestar atenção no que a Fundação Dorina Nowill faz é muito importante. O segundo é o mercado de leitores de português que vivem no exterior. Realmente não sei qual a atitude das grandes editoras quanto às vendas no exterior. As francesas e espanholas, que só vendem versões digitais em seus territórios, continuam sofrendo com a pirataria de quem quer ler nesses idiomas e não consegue comprar fora da Espanha ou da França. Isso conheço por experiência própria. De qualquer maneira, temos um mercado potencial de aproximadamente dez milhões de brasileiros vivendo no exterior. Certamente a porcentagem de leitores entre eles será idêntica, ou talvez menos — que a de leitores domésticos. Mas não é desprezível. E chegar até esse público é muito mais fácil através do digital que até mesmo da impressão sob demanda. Exportar os livros impressos é cada vez mais irrelevante. Já disse isso ao pessoal da Apex que, com a CBL, tem um programa de exportação. Mas não vi medidas práticas.

De qualquer modo, ações coletivas para tornar acessível o repertório de edições digitais disponíveis para esses grupos é algo possível e factível, começando pelo levantamento de grande quantidade de blogs culturais mantidos por brasileiros, ou visando os brasileiros que vivem no exterior.

Quanto às bibliotecas, se há um problema estrutural no Brasil, será que a inserção de livros digitais em seus acervos pode modificar de alguma maneira? Como pode ser oferecido o acesso? Você tem visto bibliotecas oferecerem acesso a conteúdos digitais? E o que podemos esperar de uma biblioteca digital?

Em primeiro lugar, que seja efetivamente biblioteca. Nesse sentido, igual na sua missão à das demais bibliotecas públicas.

Acho que a incorporação do digital é muito importante. Só que faz parte dessa luta geral de valorização das bibliotecas públicas.

No entanto, pode ser mais que isso. A recuperação digital das “obras órfãs”, por exemplo. Esse conceito de “obras órfãs” se desenvolveu principalmente a partir das possibilidades abertas pela digitalização. São aquelas que não se sabe se já estão ou não em domínio público diante do fato de ser desconhecida a data da morte do autor; ou se a editora ainda existe e manteve os contratos em dia. Ou seja, é um conceito derivado do fortalecimento do direito do autor. Pois bem, a Biblioteca Nacional da França digitalizou toda a produção editorial francesa do século vinte, buscou identificar as que estão em domínio público, abriu um espaço para que autores e editoras identifiquem obras suas que estão ainda sob direito, e autoriza qualquer edição digital dos demais livros, mediante o recolhimento de direitos autorais para um fundo. Vejam aqui meu post sobre o assunto, no blog O Xis do Problema.

O Google provocou muitas polêmicas e disputas judiciais nos EUA com seu projeto de digitalizar o universo editorial para facilitar as pesquisas. Ganhou todas na justiça dos EUA e considero esse projeto interessante. Aliás, foi a partir dele que se desenvolveu o conceito de “obra órfã”.

Por outro lado, já existem bibliotecas digitais importantes em funcionamento. Algumas delas:1 – Domínio Público – portal do MEC que disponibiliza textos em domínio público; 2 – Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin, albergada no site da biblioteca da USP, que também tem uma seção grande de obras licenciadas ou sob domínio público; 3 – Biblioteca Digital Paulo Freire, mantida pela instituição fundada por ele, e disponibiliza para download gratuito suas obras; 4 – Biblioteca Nacional Digital Brasil, mantida pela FBN; 5 – Biblioteca Mundial Digital, iniciativa da UNESCO; 6 – Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações (BDTD) mantida pelo CNPq, através do IBICT; 7 – Biblioteca Digital do Supremo Tribunal Federal; 8 – Biblioteca Digital da Unicamp, que disponibiliza acervo produzido ou licenciado pela universidade; 9 – Biblioteca Digital da UNESP, com o mesmo escopo. O site da Editora da UNESP também já disponibiliza uma razoável quantidade de títulos para download gratuito; 10 – Biblioteca Digital da Biblioteca Nacional, no site da FBN; 11 – Biblioteca Digital da Escola de Música da UFRJ, com obras raras, partituras e periódicos para download gratuito; 12 – Biblioteca Digital e Sonora, dirigida também para os deficientes visuais; 13 – Project Gutenberg. É o mais antigo projeto de digitalização de obras sob o domínio público. Começou com o download de arquivos texto e agora possibilita o acesso através de vários formatos. É trabalho voluntário. A maioria dos links está aqui.

São iniciativas importantes (e existem muitas outras) para detectar tendências e formatos. Note-se que praticamente todas publicam obras sob domínio público.

A questão mais importante ainda pendente é a do acesso às obras recém-editadas, ainda com direitos autorais vigentes. Várias experiências vêm sendo feitas aqui, com a Árvore de Livros,  a Nuvem de Livros do portal Terra e da Vivo, principalmente, e nos EUA, com vários formatos de venda de exemplares digitais para as bibliotecas públicas de lá.

É uma discussão em aberto e que ainda irá consumir muita tinta (ou bites), porque inclui também projetos particulares, como as que alugam livros ou cedem acesso para assinantes, como a da Amazon.

No final das contas, o equipamento das bibliotecas públicas brasileiras irá depender de verbas para a compra dos equipamentos e dos acervos – o que coloca o problema no centro das questões mais amplas da situação das bibliotecas públicas no Brasil.

Para finalizar, uma pergunta sobre metodologias de pesquisa. A ideia de “leitura boa” e “leitura ruim” vem sendo discutida nas novas metodologias de pesquisa sobre hábito leitor.  Por vezes parece que a desvalorização da leitura de livros digitais, que ainda existe em alguns meios, pode estar ligada à ideia de “leitura ruim”, como se o ambiente digital estivesse fadado a estas leituras. Como este conceito de “bom” e “ruim” vem sendo discutido e qual parece ser o caminho que as pesquisas tomarão para lidar com as conceituação que estão sendo “bagunçados” pelas práticas digitais? De alguma maneira os conceitos serão mais híbridos daqui pra frente?

Não acho que o problema esteja circunscrito ao livro digital. Nada disso. A maior discussão se dá a partir dos que acham que existem livros bons e livros ruins. Tipo: Machado de Assis é bom e Zíbia Gasparetto é ruim (ou qualquer dicotomia que se queira). Essas pessoas, que chamo de “leiturólogos”, interferem diretamente nas listas de aquisição de acervos – agora ainda físicos, mas a postura deles continuará a mesma quando começarem a ser adquiridos livros digitais – no sentido de que as bibliotecas só comprem os livros “bons”. É uma arrogância monumental. A biblioteca é, em primeiro lugar, um serviço público, e deve atender às necessidades de seu público. Mas também deve criar condições para a formação de leitores.

Outra questão é a incorporação, nas pesquisas de hábitos de leitura, dessas formas fragmentadas, digitalizadas, que se expressam através de blogs, posts e, como diz a prof. Tania Rösing, até mesmo nos role player games, nos quais os jogadores “criam” enredos, desfechos e desempenho de personagens. Tratei desse problema aqui e aqui.

Mas suponho que você esteja falando de algumas notícias que dão conta de “pesquisas” que indicariam que a leitura digital é menos retida pelo leitor que a leitura no papel. Falam, mas não mostram que pesquisas são essas. Para mim, até o presente, é puro bullshit, como dizem os gringos.

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