Imagem: Divulgação Intermarché 

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E se tratássemos bem também a natureza de cada criança? E se entendêssemos a diversidade humana e conseguíssemos uma maneira de educar que desenvolvesse o que cada um tem de melhor e, ainda, que pudesse ser escalonada para que o sistema de educação aceitasse diversas maneiras de educar? Aí, talvez, pudéssemos ter, na perspectiva do sistema de educação, a mesma certeza que Dan Barber tem em relação aos alimentos: “o futuro será ótimo”. É muita utopia?


Quando estamos de fato envolvidos com aquilo com que trabalhamos, diversos assuntos não diretamente ligados ao tema central do nosso trabalho nos levam a pensar nele, não é mesmo? E o  interessante é que, quando pensamos com calma sobre a relação que estabelecemos entre o nosso trabalho e determinado assunto, chegamos a um ponto em comum que, em geral, é o cerne de um modo de entender o mundo. Dessa vez, foi um episódio da série de documentários Chef’s Table[1] que nos levou a pensar em educação. A pensar, mais especificamente, em como o ponto de vista por meio do qual se percebe o mundo altera diretamente a maneira de se agir, seja em educação, seja em culinária.

Vamos contextualizar. Este seriado documenta a história de alguns chefs e o conceito todo por trás da maneira como eles preparam e servem os alimentos. Um deles, Dan Barber, é um chef norte-americano que tem tantos questionamentos sobre o sabor dos alimentos, que passou a pesquisar a maneira como a produção agrícola interfere no sabor da comida. É um entendimento de um sistema completo de produção, uma percepção de que o alimento vem de um sistema vivo, biológico, em que cada nutriente do solo e cada animal que se relaciona com a plantação interfere no alimento que chega ao prato.

Tendo crescido na fazenda da avó, Barber buscou manter a produtividade do local quando ela faleceu. Foi da união dessa busca com a pesquisa sobre o sabor dos alimentos que ele encontrou o ponto chave da sua cozinha e da maneira como prepara os pratos que serve em seus restaurantes, cujos ingredientes são produzidos por ele mesmo, na fazenda que era da avó.

Pois bem, e o que isso tudo tem a ver com educação? Foi em uma parte específica do documentário que fizemos essa relação. Na parte em que  Dan Barber conversa com Michael Mazourek, um pesquisador da universidade de Cornell, nos Estados Unidos, que trabalha com cruzamento de sementes e com observação e intervenção no processo de polinização, assim conseguindo alterar a produção agrícola para atender a objetivos específicos.[2]

Dan Barber perguntou a Mike por que ele não criava uma abóbora que tivesse mais sabor, encolhendo o produto para tirar a sua água, e Mike, surpreso, respondeu: “Em tantos anos produzindo, nunca ninguém me pediu para aprimorar um sabor”. E completou: “Você é desestimulado a trabalhar nisso, tudo deve se encaixar, deve ser uniforme, ter o mesmo tamanho… Esse [o conceito que enxerga a produção agrícola como fábrica de alimentos, todos saindo da linha de montagem, iguaizinhos] é o conceito do que a produção de hortifrúti deve ser. E essa outra relação [com o sabor e não com a uniformidade dos hortifrútis] é a parte bonita, é o que deve nos libertar”.

Quatro anos depois do pedido de Barber, o resultado do trabalho de enxugar a abóbora para deixá-la mais saborosa foi o da foto abaixo: uma diferença enorme de tamanho entre a abóbora inicial e aquela enxuta. A abóbora maior tem uma quantidade de água que a menor não tem, e com esse resultado do cruzamento das sementes, a menor fica mais saborosa.

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Foto: Chef’s Table – Netflix

Aqui, poderíamos lembrar de Foucault[3] e de como ele esmiuçou o processo tradicional de educação escolar, mostrando que o nosso sistema de educação é baseado no controle sobre o corpo infantil, controle este que tem uma clara intenção: tornar as crianças produtivas. Em outras palavras, fazer que todas as crianças se encaixem em um padrão uniforme, exatamente como Mazourek disse que querem as abóboras! A uniformidade permeia a produção hortifrúti, a educação das crianças e a vida em sociedade. No fundo, trata-se de uma maneira de encarar o mundo pela via da padronização e da homogeneização.

Mas, mais interessante que tratar disso é ver que, também na educação, há uma parte bonita, que deve nos libertar, e que não parte do ponto de vista da uniformidade. Há um movimento de renovação escolar cuja prática está ganhando força e que vem sendo cada vez mais divulgado.[4]

Podemos pegar como exemplo o livro Volta ao mundo em 13 escolas, do coletivo Educ-Ação, e o documentário “Quando sinto que já sei”, dirigido por Antonio Sagrado, Raul Perez e Anderson Lima. Ambos vão atrás não só do problema, mas de apresentar as soluções que estão sendo adotadas. De nada adianta apenas dizer que as escolas não respeitam a diversidade; muito mais interessante, mais rico e mais esperançoso é  mostrar a maneira como a renovação escolar já acontece em diversos espaços. É bonito.

Mais uma vez, podemos relacionar educação com a fala do chef  Barber: “Esse é mesmo o presente da natureza. Quando se trata bem a natureza ela retribui com comida excelente”. E se tratássemos bem também a natureza de cada criança? E se entendêssemos a diversidade humana e conseguíssemos uma maneira de educar que desenvolvesse o que cada um tem de melhor e, ainda, que pudesse ser escalonada para que o sistema de educação aceitasse diversas maneiras de educar? Aí, talvez, pudéssemos ter, na perspectiva do sistema de educação, a mesma certeza que Dan Barber tem em relação aos alimentos: “o futuro será ótimo”. É muita utopia?

E qual é o cerne da relação entre o modo de se pensar a respeito de comida e de educação? O próprio Dan Barber responde ao afirmar que procura a ciência para chegar ao sabor. Mas não uma ciência única, e sim todas aquelas que permitem fazer a conexão entre vários aspectos que envolvem a comida e seu sabor. De acordo com ele, qualquer ponto de vista que encare somente um aspecto é uma perspectiva míope. Pensar nos alimentos sem entender a produção agrícola é míope. Ir atrás dessa produção sem buscar a ciência, também é míope. Idem para quando se busca somente a nutrição, sem a intenção de agradar ao paladar.

A alimentação que conhecemos atualmente está longe de ser uma alimentação de verdade… muitas coisas trazem muito sabor e nenhum fator nutricional, e esse sabor acentuado ajuda a entupir as nossas papilas e os nossos receptores, fazendo que desejemos mais deles e não nos permitamos provar outros sabores. E quando pensamos que as crianças passam por um processo de aprender a se alimentar seguindo esses padrões perniciosos, essa questão se torna ainda mais séria.

Há, no Brasil e no mundo, movimentos que buscam retomar a nossa proximidade com os alimentos de verdade. É comum ver escolas levando crianças a feiras livres ou sacolões e constatando que várias delas não sabem o que é uma berinjela, uma couve-flor, um manjericão…

É importante lembrar que a alimentação com produtos industrializados tem como base produtos químicos e provenientes de animais, os quais produzem muita carne, leite ou ovos graças a uma grande quantidade de aditivos, o que faz que, mesmo produtos alimentares que parecem mais naturais, não sejam tão naturais assim. Eis aqui um ciclo pernicioso.

Então deveríamos nos alimentar do que produzimos em nossa própria horta, dos ovos que pegamos das galinhas no fundo do quintal e do leite da vaquinha que está ali, no pasto? Não dá pra ser tão sonhador assim, não é mesmo? Mas que dá para ter vários temperinhos e alguns legumes plantados em vasos, mesmo em apartamentos, isso dá. E ao se ter um contato mais próximo com o alimento passa-se a ter, também, mais respeito e encantamento por ele. Passa-se a ver, por exemplo, uma berinjela nascendo, enroladinha, e crescendo, bem ali, diante dos olhos. Esta é uma experiência muito rica para as crianças, e mais:  o que plantamos em casa não vai gerar produtos homogeneizados. Cada berinjela será de um tamanho diferente; algumas folhas de manjericão serão lindas e outras, nem tanto; as folhas da couve podem atrair lagartas e ficar esburacadas… E assim por diante.

Mas como, de modo geral, não é assim que acontece, nossos alimentos também sofrem com a padronização estética. Como pode? É comida, gente! Sim, é comida, mas todo mundo só quer comprar os alimentos bonitinhos. Levando isso em conta, um supermercado francês criou uma campanha (que nós achamos linda!) para incentivar os consumidores a comprarem os vegetais “feiosos”:

 

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Imagem: Divulgação Intermarché 

Com a homogeneização da educação, da alimentação, enfim, da vida, assumiu-se que tudo deve seguir um padrão, até mesmo a maneira de comer deve ser a mesma. Assim, escolhas e limitações alimentares, que são frequentemente tratadas como frescura, são ignoradas. Mas que sociedade é essa que não nos permite escolher o que comer? Ah! Sim, claro, é  a mesma que não aceita bem o que é diferente…

No fundo, quando trazemos essas questões todas sobre educação e alimentação, não estamos tratando exatamente desses dois assuntos, mas de um modo de pensar e de estar no mundo, de uma maneira de viver que implique sempre questionamentos, que tente encontrar a origem das questões e, ainda mais do que isso, que apresente possíveis soluções. Não é fácil nem simples. É complexo, é transdisciplinar. Mas, sim, é possível.

Por Suria e Isabela

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[1] A série de documentários Chef’s table é uma produção do Netflix e seus espisódios estão lá disponíveis.

[2] Uma constatação importante: alimentos que vêm de cruzamento de espécies não são transgênicos. As sementes são trangênicas quanso se insere no DNA delas algum material genético externo. O cruzamento, não, ele é uma coisa natural e, nesse caso de que tratamos no texto, é um cruzamento de sementes selecionadas, controlado em laboratório. Tanto é assim que levaram anos para chegar a uma abóbora pequena, enxuta!

[3] Michel Foucault, filósofo francês, escreveu sobre o sistema de educação no livro Vigiar e Punir – história da violência nas prisões.

[4] Para conhecer um pouco melhor o movimento de renovação escolar, sugerimos esta matéria: http://www.cartacapital.com.br/blogs/outras-palavras/como-a-educacao-brasileira-comecou-a-mudar-5135.html

Créditos:

Foto 1: Chef’s Table, Netflix.

Foto 2: Divulgação Intermarché.

ccbync3br

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