Até a Primeira Guerra Mundial, os livros brasileiros eram impressos, em sua maioria, na Europa. As editoras e livrarias brasileiras dedicavam-se mais aos livros didáticos, e pouco se imprimia no Brasil. Exatamente por isso, o governo brasileiro começou a se preocupar em incentivar e legitimar a produção de conteúdo editorial didático em 1929, quando criou o Instituto Nacional do Livro (INL), um órgão específico para legislar sobre as políticas dos livros didáticos.

Em 1976, o INL foi extinto, e a Fundação Nacional do Material Escolar (Fename) passou a cuidar de tais objetivos, usando recursos vindos do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE). E, em 1985, chegou-se ao Programa Nacional do Livro Didático (PNLD), como conhecemos atualmente, sendo o livro não consumível* escolhido pelos professores em uma lista de títulos pré-aprovados. Alguns anos depois, em 1998, surgiu o Programa Nacional Biblioteca da Escola (PNBE), cujo objetivo era prover as escolas públicas com obras e demais materiais de apoio à prática da educação básica. Além dessas iniciativas federais, também surgiram diversos editais municipais e estaduais, cujo objetivo era a compra de livros voltados às escolas. E foi assim que o governo passou a ser o principal cliente de diversas editoras nacionais; afinal, com os editais, é possível vender grandes quantidades e gerar um faturamento alto, mesmo tendo o preço unitário bem reduzido.

Nesse meio-tempo, o mercado editorial não didático também se desenvolveu.

Em 1940, no Rio de Janeiro, foi fundado o órgão que, depois, tornou-se o Sindicato Nacional dos Editores de Livros (SNEL), que visava estudar e coordenar as atividades editoriais no país. E em 1946, em São Paulo, foi fundada a Câmara Brasileira do Livro (CBL). A data próxima da fundação das duas entidades deixa claro que era uma época em que começaram a surgir mais questionamentos a respeito dos problemas do setor editorial e em que se iniciou a busca de atuação conjunta para poder resolvê-los e promover o livro no país.

No entanto, até então, o mercado editorial ainda era formado basicamente por editoras já bem estabelecidas e estruturadas. Era difícil uma editora independente manter-se por diversos motivos, um dos quais, o custo da impressão, que era muito alto, pois o processo de impressão disponível na época, o offset, utilizava materiais como fotolitos e chapas, e também havia  o preparo da máquina, tudo isso envolvendo  custos fixos que dificultavam a impressão de pequenas tiragens a preços competitivos.

O desenvolvimento do processo digital de impressão ajudou muito a expandir o mercado editorial; afinal, a não necessidade de tiragem mínima e a não existência de custos fixos permitia — e ainda permite — preços viáveis para editoras independentes montarem seus catálogos. Os programas de governo, de certa forma, contribuíram para o estabelecimento de editoras independentes, já que ao se efetuar uma venda governamental, como foi dito, a quantidade de unidades vendidas sempre é alta e isso permite um bom aporte financeiro.

No entanto, era muito difícil as editoras independentes conseguirem bons resultados, e foi com o objetivo de fortalecer a edição independente e preservar a bibliodiversidade no mercado editorial brasileiro que, em 2002, surgiu a Libre. Desde então, vemos o cenário independente cada vez mais presente em feiras, redes de livrarias e com títulos escolhidos em editais.

E os digitais?

Quando Peter James publicou seu primeiro thriller em dois disquetes, em 1993, anunciado como “o primeiro romance eletrônico do mundo”, ele foi extremamente criticado, já que estaria contribuindo para a destruição da literatura. Mas, obviamente, não foi isso o que aconteceu.

É difícil precisar quando surgiu o primeiro livro digital, pois quando se procura o momento em que algo começou no meio digital, encontram-se muitos projetos pioneiros que fizeram importantes contribuições, mas que foram esquecidos. E se não conseguimos definir quando surgiu o primeiro livro digital, sabemos que os primeiros e-readers, o Softbook e o Rocket eBook Reader, surgiram em 1998. A partir daí, esse novo cenário não parou de evoluir. Em 2000, Stephen King lançou seu livro Montado na bala primeiramente em e-book para, só depois, lançá-lo na versão impressa.

Como a procura por e-books, e consequentemente por e-readers, ainda era muito pequena, a fabricante desses primeiros e-readers fechou as portas em 2003. No entanto, um ano depois, a Sony lançou o primeiro equipamento a utilizar a tecnologia e-ink, em que as palavras na tela têm quase o mesmo brilho que as palavras impressas em papel.

Três anos depois, em 2007, o formato e-Pub foi padronizado e a Amazon lançou o primeiro Kindle, apenas para os Estados Unidos, sendo que o primeiro lote se esgotou em menos de meia hora. Já no ano seguinte, a Books on Board inovou, sendo a primeira loja online a vender e-books para iPhones.

A partir do segundo semestre de 2009, os avanços nesse cenário passaram a ser muito mais acelerados: em agosto, a Sony fez parceria com bibliotecas, permitindo o empréstimo de e-books pelos usuários; em outubro, a Amazon lançou o Kindle 2, que podia ser adquirido em mais de cem países, e a Barnes &Noble lançou o Nook; em novembro, pela primeira vez, uma escola de segundo grau no Canadá adotou como material escolar o e-reader da Sony carregado com os textos das aulas; e em dezembro, pela primeira vez, a Amazon registrou vendas superiores de e-books do que de livros impressos.

Em 2010, diversos e-readers novos surgiram ― Asus, Sony, Samsung, etc. ―, e isso atraiu a atenção para o mercado de e-books. Foi em abril desse ano que a Apple lançou o iPad e, em menos de um mês, a iBookstore vendeu mais de 1 milhão de e-books. E logo na sequência, em maio, a Google lançou sua plataforma para e-books, buscando alterar a metodologia de distribuição. Em outubro de 2011, o e-pub foi atualizado, passando a funcionar na versão 3, que suporta mais recursos, entre eles o layout fixo, e a última atualização foi feita em junho de 2014.

Desde 2010, portanto, podemos dizer que o mercado de livros digitais passou a ter mais estabilidade; afinal, as maiores empresas já estavam atuando no meio. Os formatos de arquivos seguem sendo atualizados e novos equipamentos não param de surgir. No ano passado, pela primeira vez, a venda de plataformas e programas digitais da MacGraw-Hill Education ultrapassou, em unidades, a venda de conteúdos impressos.

Ainda que a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil tenha mostrado, em maio de 2016, que 52% dos brasileiros desconhecem e-books, olhando para trás podemos ver que é inegável a evolução do mercado editorial digital ― e olhando para a frente também. A iniciativa da Worldreader, de utilizar os meios digitais para fazer livros chegarem em locais em que a distribuição de livros impressos é praticamente nula já indica que, daqui para a frente, é uma questão de fortalecimento.

Por Suria e Isabela

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* Livros não consumíveis são livros didáticos que, de acordo com o próprio FNDE, “são livros sem lacunas ou espaços para a realização das atividades ou exercícios propostos, possibilitando a sua reutilização”.

 

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