Foto: Fábio Rossi/Agência O Globo 

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“Esses equipamentos estão nos dando uma oportunidade incrível de promover leitura de forma mais ampla, coisa que nunca tivemos! Podemos pensar que os livros podem estar em equipamentos eletrônicos que, hoje em dia, praticamente todo mundo tem, e se tivermos mediadores que compreendam o mundo digital, que não tenham nenhuma dificuldade em relação a isso, está feita a grande possibilidade de se promover literatura no mundo inteiro. Isto é incrível!”


Especialista em literatura infantil, Benita Prieto é contadora de histórias há muito tempo e agora dedica parte de seu tempo para eventos de promoção de leitura digital com o Codex Clube, que realiza oficinas, cursos e palestras. Conhecemos o trabalho da Benita Pietro por meio das redes sociais, que, é claro, têm esse lindo papel de aproximar pessoas com interesses semelhantes. E não é que a semelhança era grande mesmo?
Entendemos que, por enquanto, é essencial que quem trabalha com livros digitais desempenhe um duplo papel, especialmente no caso de livros para crianças. O primeiro é mostrar às crianças a possibilidade de ler nos dispositivos digitais, pois a maioria delas — e dizemos isso por experiência própria — conhece somente os joguinhos e não sabe nem mesmo da existência de livros digitais. E isso está diretamente ligado ao segundo papel, que é o de ativista mesmo, com a função de apresentar aos adultos como é a leitura no formato digital, de explicar o por quê de o livro continuar sendo livro, sem perder as características literárias, de apresentar os meios de acesso aos livros, como as livrarias e as bibliotecas digitais. Enfim, esse segundo papel envolve defender o livro digital enquanto cultura literária e ferramenta para ajudar a aproximar livros e leitores.
Tendo como referência Arendt, que considera que o fato de os adultos já terem passado, enquanto crianças, por um processo educativo faz com que a relação entre adultos seja sempre política, envolvendo posicionamentos, discussões, reflexões e reposicionamentos, podemos dizer que esse segundo papel a que nos referimos é político, E o que une a apresentação dos livros para as crianças à apresentação dos livros para os adultos? O simples fato de que são os adultos que levam os livros às crianças! Sejam eles familiares, professores, bibliotecários…
E qual não foi nossa surpresa quando descobrimos o trabalho da Benita Prieto, por meio das redes sociais, e pudemos perceber nele várias semelhanças não apenas com a nossa forma de ver as coisas, mas também com nossos objetivos e anseios?
Marcelo Jucá, nosso Repórter Pipoca, conversou com ela e aqui está o resultado.

 

Qual foi o gatilho para você começar as oficinas de estímulo à leitura e escrita em dispositivos digitais?

Em 2011, chegou às minhas mãos um iPad 2. Curiosa, comecei então a perguntar às pessoas à minha volta o que elas faziam com os dispositivos delas, como se beneficiavam deles.
Descobri que elas, basicamente, os utilizavam para jogar e para acessar redes sociais. Resolvi vasculhar, baixei todos os tipos de aplicativos e descobri muitas coisas relacionadas à leitura. Parecia uma loucura que as pessoas ainda não utilizassem um equipamento tão poderoso, com tanto tipo de acesso, para a leitura. Sou formada em engenharia eletrônica, então a tecnologia não me assustou. E como estou na área de promoção de leitura desde 1991, percebi que havia uma oportunidade de juntar as duas coisas: a leitura e os dispositivos digitais. Foi o momento de começar a descobrir coisas que fossem interessantes, experiências inovadoras, experiências antigas neste mundo digital para levar às pessoas, abrir o olhar em relação a isso e estimulá-las.

No início, você sentiu algum tipo de estranhamento com a leitura digital?

Logo de cara percebi que o que se encontrava no digital era uma mera reprodução do que se encontrava no papel — esse foi o meu primeiro estranhamento. Na época, ainda se pensava que se o conteúdo estava no papel não precisaria estar no digital nem sofrer alguma adaptação. Claro que essas avaliações são bem diferentes das de hoje. Eu ainda não entendia onde estava o salto daquilo, como se podia aproveitar melhor o formato digital, mas logo entrei em contato com experiências vindas dos Estados Unidos, pesquisei mais a fundo e percebi que o formato podia trazer para a literatura um novo olhar, podia encantar as pessoas e dar a elas uma maneira diferente de lidar com a leitura.

Por mais que o mercado de digitais seja ansioso, talvez seja necessário fazer um tipo de adaptação até a tecnologia estar completamente presente no meio literário, concorda?

Sim! Esses equipamentos estão nos dando uma oportunidade incrível de promover leitura de forma mais ampla, coisa que nunca tivemos! Podemos pensar que os livros podem estar em equipamentos eletrônicos que, hoje em dia, praticamente todo mundo tem, e se tivermos mediadores que compreendam o mundo digital, que não tenham nenhuma dificuldade em relação a isso, está feita a grande possibilidade de se promover literatura no mundo inteiro. Isto é incrível. Quando é que a gente teve essa possibilidade no mundo? Foi aí que a ideia se desenvolveu dentro de mim. Esse é o grande caminho, o caminho de mostrar para as pessoas que há coisas incríveis sendo feitas no mundo digital e que a tecnologia nos dá uma possibilidade nunca antes vista de ampliar o acesso à leitura.

E como foi a sua primeira experiência de oficinas?

A primeira experiência foi no Salão do Livro de Guarulhos. Uma amiga era a curadora e falei a ela das minhas ideias, mostrei o material e ela topou fazer. Pensamos em um projeto pequeno, para começar, e acabei fazendo 18 oficinas! Preparei os tablets (cada participante recebia um aparelho) e o material para uma hora de atividade para pais e filhos, e o resultado foi bem interessante. E nos últimos cinco minutos, como as pessoas não tinham muito acesso à internet, eu liberava para entrar nas redes sociais e fazer o que quisesse, como mandar foto da oficina e assim vai. Hoje em dia, isso não é mais necessário; todos têm um celular que acessa a internet, apesar de a qualidade da conexão ainda deixar muito a desejar!

A partir de suas primeiras experiências, como foi a receptividade do poder público com a sua proposta de oficina de leitura digital?

Esse projeto já ganhou duas vezes o fomento da prefeitura do Rio de Janeiro, que é uma coisa muito legal que a gente tem aqui. Uma vez foi para as bibliotecas do município e a outra, para os projetos de leitura e para as bibliotecas comunitárias. Sempre com o objetivo de incentivar nas pessoas o desejo de se tornarem mediadores de leitura utilizando os dispositivios digitais.
Quando apresento o projeto, como há pouco tempo, quando estive em Portugal, é sempre um sucesso e as pessoas pedem para fazer cursos maiores. E o que é muito legal nesse lance do digital é que você pode fazer uma oficina de uma hora ou um curso de 40 horas, como já dei na Casa da Leitura.
A gente está lidando com leitura, e leitura é tudo. É possível trabalhar questões como meio ambiente, filosofia, sociologia, acesso, enfim, tudo que a gente vai conversando.
Em relação ao digital, só pode ter avanço; não há retrocesso! Aquela forma de vender livros para o governo morreu. Então, vamos promover a leitura e fazer leitores. Para isso, nada mais eficiente do que você ter equipamentos digitais. E claro que isso não invalida o livro em papel.

E por que, apesar da sua experiência como contadora de histórias, você iniciou o projeto com os livros digitais como educadora de mediadores de leitura?

Percebi que todos os que estavam próximos de mim não liam nos equipamentos digitais. Achei um desperdício ter esse mundo na mão e não conseguir usá-lo de uma maneira total. Passei a pesquisar o tema e a desenvolver uma expertise nessa área. Claro que continuo contando histórias. E, antes, eu já era educadora de mediadores de leitura, pois dou cursos de literatura infantojuvenil, leitura teoria e prática, formação de contadores de histórias, agentes de leitura…

Adultos e crianças reagem da mesma maneira diante da leitura em dispositivos digitais?

O estranhamento é total! A grande maioria não sabe nada, não imagina que seja possível ler em um aparelho eletrônico. As pessoas, praticamente, não conhecem as coisas que eu coloco. Outra coisa é a dificuldade em lidar com os equipamentos, porque tem hora que a internet não funciona, tem hora que o equipamento trava e tem hora que você não acha as coisas. Aí, tem de ter calma, respirar. As pessoas são muito ansiosas, porque, como estamos no digital, no virtual, elas acham que tudo tem de ser muito rápido. E não é assim. Infelizmente, não é assim. Então, a primeira barreira é a dificuldade das pessoas com os equipamentos, e a segunda é o desconhecimento desse mundo de leitura digital. Já andei por Portugal, Espanha, Brasil, falando sobre isso, e é sempre a mesma coisa. Impressionante.

O problema é que as pessoas não conhecem as lojas, não sabem pesquisar por desconhecer palavras-chave ou não saber o que procurar, ou há algo mais?

É exatamente isso. As pessoas vão para as oficinas totalmente perdidas. Você tem que dar o caminho direitinho, explicar como é que se chega nos lugares, e esse é o grande entrave. A partir daí, quando essas barreiras são quebradas, vem o maravilhamento. E é muito satisfatório, porque, ao final das oficinas, os participantes saem felizes! Saem conectados, fazendo tudo o que passa na cabeça deles. E é legal isso, pois já estão preparados para enfrentar os entraves e vão conseguir superá-los, porque recebam uma formação mediana sobre isso.
A base da oficina é provar que qualquer um pode ser um mediador de leitura dentro do mundo digital; basta descobrir coisas que tenham a ver com você, coisas que você vai fazer com prazer.
É a mesma coisa no papel, não tem diferença nenhuma. Só que, quando se descobre as coisas que são feitas para o mundo digital e que não passam pelo papel, aí vem realmente um encantamento. Quando as pessoas veem um livro em realidade aumentada, nossa… Antigamente, escolhia-se uma história e ela era contada por 20 anos! Hoje não dá pra ser assim. É importante seguir ampliando a literatura que é feita no mundo digital e que, no “mundo real”, digamos assim, não tem equivalência com o que é feito no papel.

Mas você considera as interações essenciais? Qual é a sua opinião sobre um livro sem qualquer tipo de interação? Faço esta pergunta, pois as bibliotecas digitais, por exemplo, trabalham com livros sem recursos, no máximo, com áudio. Você percebe isso como um salto que ainda está sendo dado?

Já vi alguns aplicativos e alguns livros que colocam certas interações que me parecem bobas e que, na verdade, só enfeitam o livro, sem nenhuma função dentro da história. Esse tipo de livro enriquecido eu não levo para a oficina. E concordo que as bibliotecas digitais são uma reprodução da biblioteca física, mas é legal também! É necessário acontecer. Estamos no olho do furacão. Estamo vivendo uma mudança de paradigma, e isso é muito legal! Isso vai crescer. O que sinto, nesses cinco anos de trabalho, é que estou fomentando ideias. Em Portugal, por exemplo, há uma figura muito interessante que é o “professor bibliotecário”, da rede de bibliotecas escolares, que existe há 20 anos. É sensacional essa rede! São bibliotecas maravilhosas, com rede wi-fi e tudo o que se tem direito. E eles estão nesse processo, estão investindo na leitura em rede: a digital.

Na sua seleção de material para as oficinas, você consegue uma boa diversidade entre autores nacionais e estrangeiros?

O Brasil ainda tem bem pouquinha coisa, mas o fato de a CBL (Câmara Brasileira do Livro) ter feito a inclusão da categoria no Jabuti ajuda, faz as pessoas pensarem no assunto. E a parceria da Amazon com a Nestlé também contribui. Claro que é uma ação de mercado, mas estamos falando de uma quantidade enorme de caixas de bombons que foram distribuídas com códigos de acesso a e-books, foram 30 milhões de e-books distribuídos no Brasil numa caixinha de chocolate. Isso é maravilhoso, é uma ação de marketing que a gente tem de pegar e ampliar. Se a gente aproveitar isso, vai melhorar os índices de leitura.

Com certeza! E você tem visto acontecer outras ações promocionais de digitais infantis, seja aqui, seja no exterior?

Não; infelizmente, ainda não. Agora estou na posição de cobrar novas iniciativas das pessoas que passaram pelas minhas oficinas. A mesma coisa acontece há anos no Brasil, e agora vemos que não há iniciativas desse tipo. Eu me pergunto, por exemplo, quando é que a CBL se preocupou em formar mediadores? Já disseram tínhamos de ter investido em formação, e nós estamos falando disso há anos! Agora, estamos na situação em que estamos.
Muita gente está teorizando, mas ainda há pouca prática. Eu gosto das coisas práticas, e vejo que o que está faltando. Falar é muito fácil, né? Quero ver ir lá conversar com a criança, usar os recursos, ver como é que é. Tem vezes que a criança e o pai estão juntos. Eu mesma, às vezes, tomo uma surra de alguns livros até descobrir como o negócio avança. Por isso é preciso fazer uma seleção, ver o que é legal e o que não é, porque tem muita coisa não criativa.
Meu objetivo é que o Codex Clube fomente uma comunidade de mediadores. Nós temos de fazer promoção de leitura com qualquer tipo de suporte! Não adianta fazer um mês de campanha na televisão e onze meses sem fazer nada. É preciso um“sacode-lê-lê”, em que um vai estimulando o outro.
Meu sonho é ter uma equipe, uns 30 mediadores de leitura, para fazer essas ações de promoção de leitura… Isso aumentaria a dimensão. Estou em busca disso agora.

Para fechar, fale um pouco sobre os contadores de história. Eles se interessam em conhecer e trabalhar as histórias de livros digitais? Há algum preconceito? Como tem sido a mediação com esses profissionais?

Olha, pouquíssimos contadores de história assistiram minhas oficinas. Teve um que fez minha oficina por acaso e ficou louco, achou muito legal e começou a viajar nas possibilidades de utilizar os recursos digitais. Não vejo muitas pessoas que pensam em casar as ideias do digital e da contação, e eu compreendo, porque é difícil! Já faz vinte anos que conto história e fico pensando como posso preservar esse momento de uma narração oral utilizando os recursos digitais sem que eles fiquem acima ou abaixo de mim, o narrador.
Eu tenho as minhas ideias, aos poucos vou começar a colocá-las em prática, e estou torcendo para que os contadores também comecem a fazer uso dos livros digitais. Afinal de contas, o que é legal na narração e na oralidade é que ela não tem erro, né? Há livros que são legais para serem lidos, outros para serem contados, está tudo aí. O negócio é a gente experimentar.

 

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