Em 2016, nós participamos de vários eventos internacionais relacionados especificamente ao mercado editorial: Libro que rompen: diversidad e igualdad en la literatura infantil e juvenil, Librerías 400 años después, Bologna Children’s Book Fair, MICSUL* e Feria Internacional del Libro de Guadalajara. E foi também o ano em que começamos a internacionalizar a Pipoca, com a tradução dos livros para o inglês e o espanhol, e também com a disponibilização de alguns títulos, pela Worldreader, em países africanos de língua portuguesa.
O simples fato de termos os livros no formato digital e o direito de distribuí-los mundialmente já nos coloca, de certa forma, no cenário internacional. Mas quem compra os nossos livros fora do Brasil? Pensamos, por exemplo, que os livros em português precisam chegar aos brasileiros que vivem fora do país, mas temos menos acesso a essas pessoas. Esse é um processo no qual estamos trabalhando, e sabemos que para ações como essas, de levar os livros para fora do país, precisamos de parcerias, justamente o que encontramos na Worldreader. Ao levar os livros digitais gratuitamente a países em condições de vulnerabilidade não obtivemos lucro, é lógico, mas percebemos que há um real potencial de difusão da leitura digital, como acreditávamos e ainda não havíamos conseguido comprovar.
Observem, no quadro a seguir, um recorte do relatório da Worldreader para os livros da Editora Pipoca, no qual aparecem os totais de páginas lidas por país nos meses de maio a setembro de 2016:

Dados Worldreader_Pipoca

Os três livros que disponibilizamos na Worldreader somam quase 40 páginas, e em um período muito curto tivemos mais de 7 mil páginas lidas lá do outro lado do mundo, onde, certamente, as pessoas nunca ouviram falar de nós. Entendemos que esse resultado é incrível, e, claro, é fortemente influenciado pela gratuidade dos livros. Mas entendemos também que, se colocássemos os livros gratuitamente nas lojas, sem um parceiro com ação local, não iríamos obter o mesmo resultado, pois a mera gratuidade não garante o acesso das pessoas aos livros, mas as ações de incentivo à leitura, sim. E é por isso que seguimos em busca de parceiros, a fim de podermos trabalhar os livros desses parceiros em nosso mercado e de que eles possam trabalhar os nossos livros no mercado deles. Isso é o que chamamos de intercâmbio cultural, pois entendemos que ações dessa natureza levam para outros mercados não só os livros como um produto, mas sim culturas de outros lugares para as crianças.
É interessante como uma proposta de intercâmbio como essa é quase um tabu! Estamos começando a vislumbrar novas maneiras de distribuição de livros, integrando os ambientes físicos e virtuais, e isso não encontra eco no mercado; é como se quem trabalha no mercado de livro impresso não quisesse incorporar o digital e vice-versa… mas seguimos tentando! Para nós, a integração é a base do trabalho: integração entre mercados, entre áreas de ações e de conhecimentos, enfim, integração entre tudo.
Mas por que estamos falando disso? Porque participamos de feiras em busca de parcerias e porque algumas parcerias muito legais estão caminhando, e em breve teremos novidades. O MICSUL, por exemplo, é um evento muito bacana, porque abrange todas as indústrias culturais (artes cênicas, audiovisual, música, games, design e moda e editorial) e isso gera conversas muito ricas, que permitem aos participantes enxergar a visão do negócio do outro e apresentar a sua, ver as coisas sob a perspectiva de quem não conhece nada da sua área, e com isso observar, por exemplo, onde está havendo falha na conversa com o consumidor, além, logicamente, de abrir a cabeça para mil novas possibilidades.
Foi graças à participação no MICSUL que recebemos o convite para participar da feira de Guadalajara, com stand na área do livro eletrônico e dois horários para fazermos apresentações abordando as diferenças entre Apps e de e-Books, produtos que até podem ser similares, mas cujos modelos de negócios e, principalmente, conceitos, são completamente diferentes.
Foi isso o que nos fez pensar muito esse ano.
Fomos também a Bremen, à Internacional Conference on Digital Media and Textualitty, um evento acadêmico não específico de discussões editoriais, no qual duas pessoas falaram sobre Apps infantis e nós, sobre livros digitais infantis. Foi muito enriquecedor! E chamou-nos a atenção o fato de como a nossa abordagem, apresentando as diferenças dos dois produtos em termos de maneiras de uso e de produção, é algo que causa uma certa surpresa. Eleonora Acerra, por exemplo, falou sobre Apps e reconheceu que na França também há um desconhecimento em relação a livros digitais infantis; ela destacou que se os e-Books fossem mais difundidos, provavelmente teriam mais aceitação por parte dos pais, uma vez que são mais semelhantes a livros impressos, e o que estes questionam é o potencial aditivo dos Apps. Eleonora relatou que, em sua pesquisa, uma mãe reclamou que, com os livros-aplicativos, as crianças não acompanham a narrativa; segundo essa mãe, as crianças começam a ler e param.
Já em nosso primeiro stand (aeeeeee!!!) na Feira de Guadalajara, foi superbacana ver que há muitos interessados em saber como trabalhar esses novos formatos, desde responsáveis por bibliotecas a representantes comerciais. De mais de uma pessoa, ouvimos: “Sei que esse é o caminho, mas ainda não sei como coloco isso na minha atividade”. Uma dessas pessoas é um distribuidor escolar de livros, e é interessante pensar na mudança que o formato digital traz para funções que já existiam: ele não vai parar de vender livros para escolas, mas pretende encaixar-se nesse novo formato, embora ainda não saiba como fazê-lo; ele está buscando conhecimentos sobre os livros digitais, sobre as maneiras de distribuição, sobre como as escolas podem absorver esses livros de uma maneira que ele possa continuar sendo uma ponte entre os livros e as escolas (claro, ela não quer perder sua função!). Na verdade, a resposta a essas questões que ele levanta ainda não existe, e talvez nem venha a existir com a clareza e a definição que desejamos. Talvez esse seja um desejo, assim como há o desejo de um formato único de livro que atenda a todos os motores de leitura com diversos recursos digitais capazes de enriquecer o livro. O fato é que esse distribuidor de livros para escolas busca conhecimentos sobre os livros digitais, e isso, para nós, é o mais importante!
A participação nesses eventos tem nos permitido encontrar caminhos aos quais não chegaríamos se não estivéssemos interagindo com outras realidades, perspectivas e opiniões. E esses caminhos são responsáveis por estarmos em uma biblioteca on-line na Suécia, por exemplo (tão legal!), por termos tidos bons dados com os primeiros três livros disponibilizados na Worldreader e, agora, por estarmos esperando a disponibilização dos demais títulos, já que todo autor quer que seu livro chegue mais longe, que suas histórias sejam lidas, ouvidas e contadas.

 

*****

* Mercado de Industrias Culturais do Sul (MICSUL), do qual participamos por meio de incentivo da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex-Brasil) e do Ministério da Cultura, reúne seis setores da indústria cultural: artes cênicas, audiovisual, música, games, design e moda e editorial.

ccbync3br

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *

15