Imagem: Divulgação Editora Pipoca

Por Suria e Isabela


Trabalhamos com livros infantis e isto nos leva a diversas reflexões sobre os muitos aspectos envolvidos neste produto. Uma delas é o incômodo que gera (não só em nós mesmas) quando dizemos que livros são produtos, pois como nele está inserida uma produção criativa, artística e cultural, normalmente é dado ao livro uma áurea de importância incompatível com o lugar de produto. É como se, dizendo que livros são produtos, retirássemos sua importancia à medida em que os inserimos em uma cadeia comercial e os damos um aspecto mercadológico. Mas nós consideramos que um livro pode estar nestes dois lugares ao mesmo tempo.

Bem, publicamos e-books desde novembro de 2013 e uma das questões que regem o nosso trabalho na Editora Pipoca é como as crianças acessam os livros digitais. Como elas chegam à leitura digital? E partindo desta pergunta, diversas decisões foram tomadas — e estamos aqui tratando de decisões relacionadas ao mercado editorial, ao mercado tecnológico, a modelos de negócio, enfim, a diversas escolhas que vêm justamente do aspecto comercial.

Para possibilitar que as crianças leiam, é preciso que autores e ilustradores publiquem seus trabalhos criativos e, para isso (a não ser que trabalhem com auto publicação), é necessário uma editora e, para que as editoras transformem esta criação em livros, há toda uma estrutura empresarial que envolve documentos e burocrarias que precisam ser administrados, pois precisamos proteger o trabalho autoral, precisamos contatos comerciais com distribuidores, precisamos um catálogo com diversos livros que contemplem as demandas de leitura das crianças, etc, etc etc. Muita água corre, sem que os leitores saibam, com o objetivo final de levar os livros aos leitores.

Ou seja, quando queremos que as crianças leiam, devemos, sim, pensar em como dar aos criadores as melhores condições de criação, mas devemos também estar em contato com os diversos atores envolvidos no caminho da produção até o leitor. Por isso afirmamos que o livro pode ocupar o espaço artístico/criativo/estético e, também, o comercial/empresarial/mercadológico.

E, de fato, percebemos que as editoras  ocupam três lugares ao mesmo tempo. Já dissemos que é nosso papel — e de todos os editores — fazer o livro chegar aos leitores e, no caso dos infantis, se envolver no acesso das crianças aos livros. É o que consideramos como função social das editoras.[1] E isto implica estar diante também do processo educativo infantil, na condição de produtores dos livros, claro, mas não podemos considerar que como produzimos os livros infantis, não temos mais relação nenhuma com o acesso das crianças a eles.

No entanto, esta condição de produtores desta cultura literária não nos tira, também, o papel de comercializadores dos livros. Ora, adoraríamos se houvesse a possibilidade de pagarem a produção dos livros (considerando que isso envolve, no mínimo, um valor a ser pago pelo nosso trabalho, pela criação dos autores e pelos programadores, no caso dos digitais, ou das gráficas, no caso dos impressos) e  de levarem gratuitamente os livros ao maior número de crianças possível. Adoraríamos! Mas enquanto isto não nos foi apresentado como um possibilidade, há o trabalho de muitos profissionais do livro a ser pagos: nosso, dos autores, dos distribuidores, dos livreiros, dos programadores ou da gráfica, dos bibliotecários… a lista seria imensa se colocássemos todos aqui!

E é quando entendemos que os livros não são somente espaço de arte e de cultura, mas são também produtos, que podemos compreender quais aspectos comerciais estão envolvidos no mercado editorial e como estes interferem no acesso dos leitores aos livros. Somente assim podemos tomar decisões empresariais em vista a cumprir com a nossa função social.[2]

*****

[1]  O artigo A função social das editoras foi publicado no Jornal Rascunho em abril de 2015, edição nº 192.

[2] Leia também a Parte II (o caminho dos livros até o formato digital) e a Parte III (E-books ou book-apps? – ou sobre como uma decisão mercadológica interfere na integração dos três papéis editoriais) deste texto 😉

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *

15