Imagem: Project Gutenberg

Por Suria e Isabela


O caminho dos livros até o formato digital

Compreendemos que os conhecimentos pedagógicos e editoriais são complementares. Não para a produção de livros educativos ou para utilizar a literatura para ensinar algo para as crianças, mas porque a pedagogia pode ser uma ferramenta editorial importante, ou seja, o conhecimento que a pedagogia oferece sobre o desenvolvimento infantil não se refere ao livro em si, mas a seu processo de produção.

Hannah Arendt,[1] afirma que a necessidade de um processo educativo vem do simples fato de que crianças nascem, sendo necessário apresentar a elas o mundo antigo, ou seja, a nossa cultura. Esta é uma visão de educação pela perspectiva do cuidado, da importância de não se perder a criação cultural ou se esquecer de que a cultura é uma produção histórica e é a partir desta perspectiva que trabalhamos.

Quando estudamos a história dos livros infantis, observamos que a produção de livros digitais, na verdade, é uma continuação dessa história, e não uma ruptura. As imagens abaixo são do que se considera o primeiro livro publicado especificamente para o público infantil e vemos nele a união de duas linguagens: texto e ilustrações.

(Orbis Pictus, de Comenius, 1658)

Depois, houve a inclusão de ferramentas de design, este livro abaixo, por exemplo, foi o primeiro livro pop-up.

(Queen Mab or the tricks of the arlequins, de Robert Sayer, 1771)

No exemplo acima já é possível perceber como a ilustração ganhou mais espaço e importância, se comparado ao exemplo anterior. E, depois ainda, esse desenvolvimento foi ficando cada vez mais elaborado e as ilustrações passaram a acrescentar elementos para a interpretação da narrativa, como é possível observar ao comparar as diferenças entre as ilustrações de um mesmo trecho da história Henrique, o topetudo, de Perrault. É possível reparar que, além de uma diferença de qualidade técnica — que vem de um desenvolvimento dos próprios materiais de produção das ilustrações, afinal, estamos tratando de produções com quase dois séculos de diferença! —, há uma diferença na composição das ilustrações, do jogo de luzes, entre outras que fazem com que, na primeira, a ilustração apenas mostre na linguagem imagética o que está na linguagem escrita, enquanto a segunda ilustração amplia o texto e traz também elementos como o mistério, a subserviência, entre outros.

 

(Antoine Clouzier, 1697, e Gustave Doré, 1867)

Isso significa que, desde o começo de sua história, o livro infantil é um espaço de união de diversas linguagens em busca de apresentar mais informações aos leitores. Assim sendo, na época em que vivemos, nos parece absolutamente natural que o próximo passo seja a inclusão da linguagem digital nos livros infantis, com suas possibilidades de animações, interações e áudio.

Quando optamos por produzir livros no formato digital, escolhemos fazer isso considerando como inserir recursos para que pudessem acrescentar elementos à narrativa apesar de estarmos cientes de que, no contexto latino-americano, ainda se enfrenta a barreira da alfabetização digital deficiente. No Brasil, por exemplo, ainda que somente 41% da população saiba da existência dos livros digitais e dessa possibilidade de leitura,[2] o acesso aos equipamentos eletrônicos tais como tablets, computadores e smartphones, que permitiriam a leitura de livros, é muito grande. E isso ocorre em toda a América Latina, onde 84% da população tem acesso, por exemplo, a smartphones.[3]

Percebemos, portanto, que há um potencial de difusão da leitura e da literatura por meio de dispositivos digitais que ainda não está devidamente explorado.

E podemos comprovar este potencial com a nossa parceria com a Worldreader, que é uma organização norte-americana que leva livros digitais a países em desenvolvimento, onde os livros impressos não chegam. Eles disponibilizam gratuitamente os livros digitais em um formato simplificado, que pode ser lido nos celulares disponíveis na região. Temos com eles apenas três livros pequenos, que totalizam 36 páginas, e o número de páginas lidas em 5 meses foi de 36.224. Mais de 7 mil páginas lidas por mês!

Por mais que nos encante a possibilidade de trabalhar com a inserção de recursos digitais nos livros infantis, dados como esse, somados ao fato de que a maior parte de leituras digitais de nosso catálogo se dá por meio de bibliotecas digitais que não aceitam recursos, nos mostram com clareza que o mais importante de levar os livros para o universo digital é a exploração deste potencial de capilarização dos livros. E é daí que vem uma das principais decisões comerciais que faz diferença diretamente na função social e cultural da editora: livros no formato e-book ou book-app?[4]

*****

[1] ARENDT, Hannah. A Crise na Educação. In: Entre o Passado e o Futuro. 7. ed. São Paulo: Perspectiva, 2013.

[2] Dados da pesquisa TIC Domicilios, publicado pelo Comitê gestor da internet no Brasil, em 2015.

[3] Dados do Relatório Evolución del libro electrónico en AL y España, publicado pela Dosdoce e Bookwire, em 2016.

[4] Leia também a Parte I e a Parte III (E-books ou book-apps? (ou sobre como uma decisão mercadológica interfere na integração dos três papéis editoriais) deste texto 😉

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