Imagem: Editora Pipoca®

Por Suria e Isabela


E-books ou book-apps? (ou sobre como uma decisão mercadológica interfere na integração dos três papéis editoriais)

Como editora, uma das principais decisões que precisamos tomar foi em relação ao formato de nossas publicações: seriam e-books com layout fixo ou book-apps? Como as ilustrações e a qualidade imagética nos livros para crianças têm uma importância fundamental, estes são os dois formatos que podem contemplar a produção literária infantil digital, de modo a proporcionar uma experiência de leitura no universo das novas tecnologias que siga permitindo a integração entre texto e imagens.

Livros digitais para adultos, no geral, não envolvem este tipo de discussão e de escolha, ainda que, em alguns casos — como por exemplo livros técnicos, que podem incluir modelos em 3D para facilitar a compreensão do assunto — esta discussão também esteja presente e os editores também enfrentem a mesma dificuldade de não existir a possibilidade de leitura de seus livros em e-readers, já que estes equipamentos têm como foco a leitura de textos com poucas imagens, as quais não representam a maior parte do conteúdo. Exatamente por isso, e-reader, infelizmente, não nos atendem.

Os formatos e-book layout fixo e book-app, portanto, contam com desktop, tablet ou smartphone para serem lidos. Mas, fora isso, os dois produtos apresentam diferenças tão profundas que

consideramos que são, de fato, conceitos distintos. Isso porque a maneira como book-apps chegam aos leitores, sua integração com a indústria do livro e com o mercado editorial são todas opostas aos caminhos de um e-book layout fixo. Que fique claro que não estamos, aqui, dizendo que um é melhor que o outro, apenas pontuando que as diferenças enormes e abrangem muitos aspectos, o que nos leva de volta à questão que vem da função social de uma editora: como as crianças acessam a leitura digital? E qual a diferença na relação das crianças com os livros digitais nestes dois formatos?

Daniel Benchimol, argentino que trabalha com produção e inserção de livros digitais no mercado editorial, em uma oficina sobre edição de livros digitais na Feira Internacional do Livro de Guadalajara de 2015, afirmou que produtos nos formatos PDF, epub e iBooks — que são os formatos de publicação dos e-books — são mais parecidos com livros tradicionais, enquanto os Web books, book-apps e Games books proporcionam uma experiência diferente, mais póxima à dos jogos que da leitura literária. O que percebemos, em nossos estudos, é que os primeiros formatos (PDF, epub e iBooks) promovem uma experiência introspectiva, cujo foco da leitura está na narrativa e, então, relacionam-se ao desenvolvimento de habilidades de leitura e de concentração, pois a inserção de recursos vai não é possível em todos os formatos e, naqueles que permitem tal opção, as interações não se sobrepõem à leitura. No segundo caso (formatos Web books, book-apps e Game books), a experiência é extrospectiva, trabalhando mais o desenvolvimento de habilidades relacionadas a jogos pois, em geral, o foco da leitura está nos movimentos necessários para seguir adiante na narrativa, ou seja, nas interações.

Tanto books-apps como e-books podem ser vendidos em lojas físicas por cartões-presente e ambos podem gerar também audiobooks, que podem ser mais um canal para se chegar aos leitores. Além das diferenças citadas acima, temos dados a respeito de downloads: books-apps têm muito mais descargas que ebooks infantis, mas o custo de produção também é muito superior e, nos dois casos, os números de downloads aumentam muito quando o produto é distribuído gratuitamente. Mas, provavelmente, a principal diferença é que os book-apps são vendidos em lojas de aplicativos e é comum haver publicidade e compras internas, mesmo naqueles voltados para crianças; já os e- books são vendidos nas livrarias virtuais e podem ser acessados, também, nas bibliotecas digitais que, na verdade, são aplicativos que reúnem e-books. De certa maneira, a distribuição de e-books, seja via aplicativos de bibliotecas seja via livrarias virtuais, segue o mesmo padrão já estabelecido mercado editorial — e isso pode ser considerado positivo ou negativo, mas é por isso que afirmamos que os e-books utilizam da indústria dos livros.

O caminho dos books-apps até o leitor é mais direto, quase sem intermediários (e afirmamos que é “quase”, pois estamos tratando de crianças, então sempre há um adulto que será o mediador do acesso das crianças aos livros e às compras aos downloads internos nos apps) — o que também pode ser considerado positivo ou negativo. No caso de book-apps, ao não se contar com intermediários além da loja de apps, em si, você consegue um lucro maior, mas também realiza um trabalho mais solitário e, por vezes, é mais difícil de se conseguir fazer ver, já que se trabalha completamente por fora da maneira como a indústria do livro e o mercado editorial estão absorvendo os e-books.

Mesmo optando pela produção de ebooks se pode escolher fazer a distribuição por conta própria, recebendo, assim, dinheiro de diferentes fontes e países, mas quando você é uma editora pequena, além de esses processos serem muito custosos, você ainda conta com a pouca expressividade de um catálogos reduzido diante das lojas e, aí, entram os agregadores, que fazem um trabalho similar ao dos distribuidores de livro físico, mantendo relacionamento com os responsáveis pelas livrarias virtuais e podendo oferecer uma variedade maior de títulos para que as lojas possam promocionar, destacar, etc. Então, com base nessas diferenças e por entendemos que precisamos de suporte para que possamos aproveitar a capacidade de capilarização oferecida pelos canais digitais, optamos por produzir e-books.

O relatório Evolução do livro digital na América Latina e Espanha, produzido pela Dosdoce.com e Bookwire, em 2016, nos apresenta alguns dados muito interessantes:

Vemos, no primeiro gráfico, que 46% dos livros editados na Espanha são vendidos no próprio país, sendo o restante vendido em outros países, com destaque para o México. Já no segundo, vemos que 45% dos livros latino-americanos publicados por editoras independentes são vendidos na própria América Latina, ou seja, nos dois casos identificamos que aproximadamente metade das vendas de ebooks acontece fora do país onde ele foi produzido. O fato é que com o alcance de lojas e bibliotecas a capilarização dos livros digitais realmente ocorre e facilita a internacionalização de editoras pequenas.

Em nosso entender, este tipo de dados e de conhecimentos tem que ser balizador de decisões empresariais. Optamos pelos e-books porque queremos usar a estrutura do mercado editorial para distribuir os livros em um grande número de canais (função comercial), difundindo a cultura literária brasileira e mantendo o foco na narrativa (função cultural) e levando os livros a mais e mais crianças (função social), ou seja, queremos utilizar o potencial capilarizador do universo digital para levar os livros mais longe e, assim, integrar os aspectos comercial, cultural e social.

Pensar no aspecto comercial dos livros nos mostrou que trabalhar as três funções editoriais no conjunto leva a fortalecer cada um dos aspectos da produção literária, ou seja, o lado mercadológico não retira a importância do livro, só o faz chegar onde deve, da melhor maneira possível, articulando todas as facetas do trabalho editorial.

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Leia também a Parte I e Parte II (O caminho dos livros até o formato digital) deste texto 😉

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